acerca de pés e teimosia
segundo minha mãe eu sou teimosa e desobediente. mamãe é um cadinho exagerada, mas sou obrigada a admitir que ela tem lá suas razões. a crônica abaixo, antiga, é um exemplo de que teimosia não combina com bom senso. e se a publico neste momento é com o claro objetivo de lê-la incontáveis vezes durante o dia de hoje. eu mereço o castigo.
bem-feito pra mim *;)
MEDO DE MÉDICO
Após muita insistência da família, amigos, agregados, cachorro e papagaio, decidi ir ao médico, um angiologista indicado por uma amiga hipocondríaca e alarmista: "Mariza, não estou gostando desses sintomas, é circulação. Olha a trombose!".
Fiquei assustada, imaginando-me com os pés amputados, depois as pernas e, por fim, a morte.
Marquei consulta e no dia aprazado lá estava eu, nervosa, descabelada e cheia de olheiras, tentando ler algumas revistas enquanto, com um canto de olho, investigava a sala de espera na tentativa de encontrar alguém que, como eu, aparentasse aquela cara de doente terminal.
Para a minha agonia e do meu umbigo, que a essa altura estava inchado de tanta autocomiseração, deparei-me com o sorriso piedoso da recepcionista que, exibindo saúde e beleza invejáveis, me olhava com pena. Ai, minha Nossa Senhora da Saúde, pensei, meu caso deve ser mesmo grave. Desviei os olhos para meus pobres pés doloridos, calçados em sandálias baixas. E apesar da aparente normalidade, comecei, naquele momento, um ritual de despedida daqueles que, em passado não muito distante, haviam percorrido, em sapatilhas, alguns dos melhores palcos do país.
Até hoje não entendo o porquê dessa espera horrenda a qual nos submetem médicos e dentistas, mesmo estando vazios os consultórios. Só pode ser proposital, uma forma de tortura imposta a nós, leigos, dependentes dessas doces e salvadoras criaturas.
Pois já esperava há meia hora e sem mais o que fazer, dei pra encenar meu funeral. Eu, mortíssima em cima de uma mesa no melhor estilo Filadélfia: a casa lotada e todos assistindo em DVD aos meus melhores momentos. Lógico, no vídeo eu estava linda, com os cabelos ao vento e enfiada num vestidinho fashion de crepe, enquanto os amigos — todos homens, naturalmente — diziam: "Como era bonita" ou "Por que perdi essa mulher?"
— Você não vai morrer.
— Não?
— Não! Que idéia maluca. Você não tem problema de circulação, o que tem é uma bela tendinite em ambos os pés.
— Ah!...
Levantei-me de um pulo, completamente refeita dos pensamentos fúnebres que haviam me assaltado minutos antes. Um batom e um blush, daria tudo por um batom e um blush naquele instante.
— Calma. Algumas recomendações antes que saia por aí pulando. Nada de saltos altos e trate de fazer fisioterapia.
Desabei novamente. Desistir dos saltos? Nunca!
— Conforme-se com seu tamanho.
— Obrigada, Doutor, mas o que me falta em tamanho compro na sapataria da esquina.
Ergui o queixo e saí da clínica. Completamente desolada.
Chamem-me superficial, mas sapatos de saltos sempre fizeram parte da minha indumentária, do meu dia-a-dia. Vá lá, ilusão que seja de poder caminhar sem desaparecer num mundo cada vez mais habitado por bípedes gigantes.
Bem, os planos para a conquista daquele bonitão de 1,90 foram adiados até que esteja totalmente restabelecida e caso o bom senso recomende a eliminação de saltos altos definitivamente, um baixinho simpaticíssimo anda de olhos espichados.
Dos males, o menor.
mariza lourenço
[imagem john foxx]








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