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23/03/2009

De cansaço e velhice...


imagem deniz tavmen



De cansaço e velhice...
(para uma dama)

Não imaginei que subiria novamente estas escadas e para fazer a mesma coisa: encontrar-me com ele.

A primeira vez, há tantos anos, é algo que não interessa saber, pois ninguém há de achar impressionante o encontro entre a moça e seu noivo. Que fiquem na lembrança as lembranças de pactos e alianças.

A nossa história o tempo vem contando todos os dias. E não pensem tratar-se de uma história bonita ou feia demais. Não me envergonho dela, porque a trago nos filhos que fiz, nestas pernas inchadas, nestas mãos débeis, neste rosto sulcado.

Neste corpo caquético. Quase morto. Feito o dele.

Hoje, depois do último degrau, todas as lágrimas me serão permitidas chorar.

Sobre o corpo dele. No mesmo lugar.

Porque hoje, para além desta escada, a nossa história se acaba.


***

Cordélia

Com dificuldade o velho abriu a janela do quarto e deixou que os cheiros de Cordélia se misturassem ao vento daquela tarde.

Fechou a janela e olhou, sem arrependimentos, para a fotografia da mulher.

Libertara-a afinal, ela e ao seu amor não correspondido. Ela e aos seus olhos mendigos. Seu último presente, seu último ato de carinho fora o melhor e mais verdadeiro. Sentira por ela, naqueles segundos de brisa, um tesão que parecia querer arrebentar-lhe as carnes senis.

Que fossem embora, ela, o vento e seus cheiros. Deixassem-no sozinho.

Ele e ao seu desejo tardio.

Tudo já havia sido feito.

E dito.


mariza lourenço

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