de mim e das minhas vocações hereditárias
[imagem asia image groups]Diários
da chuva
ontem.
chove muito e eu não penso em fazer mais nada além de continuar sentada nesta cadeira, num canto escuro do quarto.
meu pai morreu, mas deixou sua cadeira. ele sabia das coisas.
esta cadeira é um ninho.
tenho medo de tempestades, mas a escuridão é velha companheira. gosto dela.
desde a barriga de minha mãe.
quando tenho medo, sinto raiva. uma raiva desordenada de tudo, sobretudo desta incompetência em lidar com meus pavores. quando fiz sete anos um bicho-papão enfiou-se debaixo da cama.
e nunca mais foi embora.
talvez esta seja uma boa hora para pensar nele e em sua ausência. embora o saiba presente do outro lado da porta. em maio é meu aniversário. o dele também. nosso inferno começa no mesmo dia.
e não tem data pra terminar.
chove ainda, mas é chuva mansa, de pouco barulho. o bicho-papão adormeceu sob a cama. do outro lado da porta, lá na sala, ele também dorme sobre o sofá.
como sempre.
de olhos abertos e sentada nesta cadeira, continuo acordada.
meu pai é que sabia das coisas.
esta cadeira é meu ninho.
das horas
I
bateram duas vezes à porta e minha disposição em abri-la é tão miúda quanto a certeza de que sobreviverei a mais um processo de desconstrução. não quero coadjuvantes. minha dor é egoísta. solitária. aguda.
e de dor eu entendo como ninguém.
II
sou mulher de prantos.
choro por tudo e nada. e o nada tem sido bem mais que tudo. choro manso pra despistar os demônios. choro baixo pra enganar meus fantasmas. ninguém desconfia de nada. e o mundo segue - presumivelmente - feliz.
sem mim.
III
sinto faltas essenciais: de algum amor, de alguma paixão, de algum sexo. e de tempestades. o que antes era profuso agora é reto. e esta linearidade me apavora. não estou preparada para viver em calma perpétua. quase morta.
ainda não.
IV
passei metade da vida levantando bandeiras e tentando compreender meus abismos. passei a vida inteira carpindo a dor alheia e perdendo meus sonhos em qualquer lugar.
logo eu, que nunca soube advogar em causa própria, apostei todas as fichas no mesmo jogo.
e perdi.
V
confesso que fui muitas sem ser nenhuma. confesso que me apaixonei demais e amei de menos. confesso que não me lembro de alguns cheiros. de algumas carícias. e do meu primeiro beijo.
se, hoje, vomito lembranças é pra justificar esta minha condição de puta.
de um homem só.
VI
entre meus dedos, o terço - presença física de minhas crenças - queima. ando esquecida dos mandamentos. e já não sei onde foi parar meu último pecado. aquele do qual nunca me arrependi.
a imagem da Virgem me enxerga, entende e consola.
ah!, Senhora, estou nua. tem piedade de mim.
VII
foi por minha conta e calculado risco que me meti em claustro (mais uma vez) e calei a boca (mais uma vez).
batem novamente à porta. (estou assustada). do lado de lá esperam pela mulher de sempre. pelo riso fácil. pela boca pródiga em contar histórias.
do lado de lá esperam por respostas que não tenho.
nem pra mim.
das vocações hereditárias
I
eu a vi sentada na mesma cadeira de sempre. parecia não dormir há anos. os nós dos dedos estavam brancos de tanto desfiar o terço. ela reza demais. ela chora demais. sempre foi assim. esse pranto de dor. essa reza pedinte. esse fardo maior que a vida. a dela e a minha, desde que nasci.
até quando, minha mãe, esse choro por mim?
II
tenho raiva dela. tenho inveja de sua fé, de seu conformismo, de sua abnegação. sua coragem desmascara a minha fraqueza. eu a culpo e ela disputa comigo uma dor que é só minha. a vida se tornou insuportável ao seu lado.
porque ela sempre soube o que eu nunca hei de saber.
III
ela não me avisou que seria assim, que eu seria assim, feito ela. que ela seria meu espelho. e que sua dor e a minha seriam irmãs. todas as lágrimas que verti têm o gosto dela. tudo é dela.
até esta vocação pra infelicidade.
IV
aquele homem disse: a filha não sobreviverá à mãe. ela acreditou e tem se esforçado em descumprir nosso destino. vez por outra eu a pego tentando desmanchar com os olhos as linhas das minhas mãos.
ela me ama.
e eu a amo tanto, como ninguém, em tempo algum, haverá de amar.
mariza lourenço








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