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12/03/2009

Elas ainda...

MADALENA

Dia sim dia não, pedia a ela que o acompanhasse em seus passeios, mas a mulher preferia assistir novela.

Ele não! Gostava mesmo era de ouvir Zé Cruz ao violão. Lá, no beco da Lapa, durante horas, ou até que a novela acabasse e pudesse voltar para os braços dela. Sua mulher.

Dia desses, de muito calor, Madalena e suas pernas atravessaram o beco da Lapa numa insolência de calar a cantoria nos bares. Madalena não era bonita, mas tinha um jeito de fazer perder a cabeça. De qualquer um.

Sob a mesa as pernas de Madalena acariciaram as dele. Sob a mesa a mão de Madalena brincou com ele até molhá-lo inteiro. Sob a mesa ele bem quis se atracar com Madalena.

Mas Madalena era insolente demais.

Anteontem ele juntou suas coisas numa mala. Na sala, ela, sua mulher, assistia ao antepenúltimo capítulo da novela. Não trocaram palavra. Não choraram uma lágrima. Bem que ele quis voltar.

Mas
Madalena tinha um jeito de fazer perder a cabeça.

E ele perdeu, assim que a viu.


ESMERALDA

Ela tinha nome de pedra preciosa e ele a amava, não se sabe exatamente o motivo, talvez, por estar sempre ali, disposta e à disposição: à sua mão.

Quando a jóia desapareceu, ele pensou que, provavelmente, o cadeado de sua caixa de encerrar relíquias tivesse sido forjado com matéria ordinária, comum demais para aprisionar riquezas.

Grande e natural engano. Ninguém lhe havia furtado a jóia. Ela escapou porque quis, pela primeira fresta que se abre no vácuo do coração.


DAIANA

Daiana ajeitou os seios dentro do sutiã meia-taça. Olhou-se no espelho e resolveu retocar o batom. As mãos estavam trêmulas e sob os olhos castanhos, a maquiagem mal encobria as profundas marcas roxas. Cheirara a última carreira há dia e meio e, nesse momento, daria o céu e o purgatório por mais um “teco”.

A salvação da lavoura esperava do lado de fora do banheiro: um sujeito asqueroso, de mãos enormes.

Foram para a pista de danças e, entre os braços do sujeito, Daiana se contorcia de nojo e fraqueza. Ele a apertava e, ao ouvido, dizia-lhe coisas que fariam corar a mais devassa das criaturas. Não que Daiana não o fosse, mas aprendera a ser surda e cega por conveniência. O tal sujeito lhe metia medo. Pavor! Aquelas mãos horrendas não paravam de lhe apertar o corpo todo. Aquela língua não parava de vomitar um palavrório do cão em seu ouvido. Treze minutos de dança e a moça já pedia a todos os santos que a fulminassem ali mesmo.

— E aí, vamos aliviar ou não?

Daiana suspirou, desvencilhou-se do homem e deixou que ele a seguisse até o bar. O barman, único que ainda lhe reservava algumas palavras decentes, olhou-a preocupado quando ela pediu a chave de um dos quartos. Daiana levou os dedos aos lábios e estendeu-lhe a mão direita. Sem muito o que fazer, o homem deu à moça uma chave. Do quarto 13.

O sujeito estava impaciente, e assim que entraram no quarto, dirigiu-se a uma mesinha e, sobre um pequeno espelho, dispôs com cuidado as carreiras de pó. Daiana precipitou-se sobre a droga feito animal. Cheirou, cheirou e cheirou até que lhe faltasse o ar. Não reparou — nem podia — no homem que a observava sorrindo. Ele não havia cheirado, sabe-se Deus porquê. As razões, se é que existiam, não eram conhecidas por mais ninguém além daquele sujeito estranho.

Daiana se sentia leve e feliz, como se de repente, o mundo já não fosse este, mas aquele de quando era criança e brincava no quintal de sua vizinha. Podia até ouvir a criançada implicando com seus modos de menino. Lembrou do gato, da boneca e do arroz branquinho que dona Jurema fazia para alimentar a meninada.

A leveza era tanta que Daiana não se importou quando ele lhe pediu que tirasse as roupas. Despiu-se, peça por peça. Dançou uma dança confusa, misto de ciranda e xote. Estava tão feliz que se esquecera de rezar para que algum santo a fulminasse ali mesmo.

Nem mesmo quando aquelas enormes mãos envolveram e, por fim, quebraram seu pescoço, Daiana pensou em rezar.

mariza lourenço

[imagem andreas schlege]

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