Mulheres de qualquer tempo.
08 de Março: Viva Você, Mulher. De qualquer tempo. Todo dia!

8 de macho
nasci pra isso:
ou fico por cima,
ou não saio debaixo
dia da mulher
comer,
amor:
ação!
Adelaide do Julinho
***
a esfinge
Ofélia tem os cabelos tão pretos
como quando casou.
Teve nove filhos, sendo que
tirante um que é homossexual
e outro que mexe com drogas,
os outros vão levando no normal.
Só mudou o penteado e botou dentes.
Não perdeu a cintura, nem
aquele ar de ainda serei feliz,
inocente e malvada
na mesma medida que eu,
que insisto em entender
a vida de Ofélia e a minha.
Ainda hoje passou de calça comprida
a caminho da cidade.
Os manacás cheiravam
como se o mundo não fosse o que é.
Ora, direis. Ora digo eu. Ora, ora.
Não quero contar histórias,
porque história é excremento do tempo.
Queria dizer-lhes é que somos eternos,
eu, Ofélia e os manacás.
Adélia Prado
***
Beleza e verdade
Morri pela beleza, mas apenas estava
Acomodada em meu túmulo,
Alguém que morrera pela verdade,
Era depositado no carneiro próximo.
Perguntou-me baixinho o que me matara.
– A beleza, respondi.
– A mim, a verdade, – é a mesma coisa,
Somos irmãos.
E assim, como parentes que uma noite se encontram,
Conversamos de jazigo a jazigo
Até que o musgo alcançou os nossos lábios
E cobriu os nossos nomes.
Emily Dickinson
Tradução de Manuel Bandeira
***

8 de macho
nasci pra isso:
ou fico por cima,
ou não saio debaixo
dia da mulher
comer,
amor:
ação!
Adelaide do Julinho
***
a esfinge
Ofélia tem os cabelos tão pretos
como quando casou.
Teve nove filhos, sendo que
tirante um que é homossexual
e outro que mexe com drogas,
os outros vão levando no normal.
Só mudou o penteado e botou dentes.
Não perdeu a cintura, nem
aquele ar de ainda serei feliz,
inocente e malvada
na mesma medida que eu,
que insisto em entender
a vida de Ofélia e a minha.
Ainda hoje passou de calça comprida
a caminho da cidade.
Os manacás cheiravam
como se o mundo não fosse o que é.
Ora, direis. Ora digo eu. Ora, ora.
Não quero contar histórias,
porque história é excremento do tempo.
Queria dizer-lhes é que somos eternos,
eu, Ofélia e os manacás.
Adélia Prado
***
Beleza e verdade
Morri pela beleza, mas apenas estava
Acomodada em meu túmulo,
Alguém que morrera pela verdade,
Era depositado no carneiro próximo.
Perguntou-me baixinho o que me matara.
– A beleza, respondi.
– A mim, a verdade, – é a mesma coisa,
Somos irmãos.
E assim, como parentes que uma noite se encontram,
Conversamos de jazigo a jazigo
Até que o musgo alcançou os nossos lábios
E cobriu os nossos nomes.
Emily Dickinson
Tradução de Manuel Bandeira
***
Muito PrazerNão me cobre lógica, não me peça coerência, nem venha me falar de razão – só a paixão me move. Não qualifique ou quantifique meus sentimentos e nem os compare a nada – deles só eu sei. Eu e os meus fantasmas, eu e os meus medos; sou pura emoção! Não sei falar sobre passarinhos quando grilos me ensurdecem e abutres voam salivantes sobre minha cabeça. Nem de flores, quando só espinhos me ferem. Não canto canções de amor, quando meus ouvidos só ouvem hinos de guerra. Meus olhos nunca vertem poças – vertem mar profundo, intenso, passional. Não me cobre datas, não me estipule prazos – sou atemporal. Não me imponha condições – sou incondicional. Às vezes, sou meu próprio furacão – me arrasto, me destruo, me devasto. Em outras, sou brisa, vento – me balanço, me embalo, me carrego. E noutras sou cimento, viga, tijolo – me ergo e reconstruo. Quando amo, sou música – me entôo, reverbero. Sou fogo – me queimo e me ardo; sou água – me afogo, me inundo. Sou meu problema, minha solução; meu veneno, meu antídoto. Sou luz, escuridão. Sou prisão e liberdade. Sou escrava, sou rainha, amazona e montaria. Meu querer não carece de explicação, não tem tempo, não tem hora – acontece quando e por quem tem que acontecer. Muitas me habitam – santas, profanas, crentes, piedosas, puras, pecadoras, corretas, erradas, imperfeitas, dominadoras, submissas. Anjos e demônios correm velozes à minha volta, sem multa. Mudo meu cenário, meu protagonista, meu enredo, meu roteiro. Posso amanhecer nublada, entardecer ensolarada, estar enluarada ao anoitecer e tempestiva de madrugada. Por muitos nomes já me chamaram, mas somente por um respondo.
Com prazer ou sem prazer...
Sou!
Layla Lauar
***
Uma história de pescadores
Quando Pedro saiu para pescar e não voltou, pensou que ia morrer. Passou dias inteiros andando na areia, olhando o mar, pedindo pra Iemanjá devolver seu homem. Ela lhe devolveu a jangada. E ficou com o seu amor. Dela, que era a mulher de Pedro.Uma dor tão imensa que mal lhe deixava respirar.
Mas, com cinco filhos pequenos em casa, não dava mesmo pra ficar parada, sofrendo. Tinha que ir à luta. Tratou de arrumar a jangada e partir para pescar também. Naquele fim de mundo, onde só tinha mesmo areia e mar, longe de tudo, só pescando ganharia o sustento dos filhos. Ou arranjando outro marido. Pra perder depois pra Iemanjá. Como sempre acontecia. Isso, ela não queria mais.
Assim, a jangada voltou ao mar com ela e mais duas, irmãs em tudo, inclusive nas dores da perda.
Ah, era feliz ali, no meio do mar, sem nada por perto. Ela, o vento, a vela, a rede, os peixes. E as outras duas. Iguais.
No início, todos os homens da aldeia desacreditavam delas. Onde já se viu mulher pescar de jangada, diziam. Mas logo se renderam às evidências. E passaram a respeitá-las. A ela, mais que todas.
Dia sim, dia não, saíam antes do sol raiar e voltavam à tardinha. As redes cheias. As mãos grossas. A pele crestada de sol. Um brilho especial nos olhos. Uma felicidade secreta no peito. E o cansaço.
Aos poucos, outras mulheres se aventuraram também. Em breve, revezavam-se no cuidado dos filhos. As que ficavam em terra cuidavam das crianças de quem estava no mar. No dia seguinte, estas iam pescar e as outras se encarregavam da meninada.
Uma coisa, entretanto, ela não revelava. Jamais contou a ninguém. Naquela noite, quando Pedro não voltou, prometeu que o mesmo não aconteceria aos seus filhos. Não seriam pescadores pra morrer bestamente, numa noite de vendaval. Isso ela garantia!
Fazia oito anos agora, que perdera Pedro. E que ganhara uma vida sua. Árdua. Dura. Mas sua. Que garantira os filhos na escola. A mais velha, professora, já. Os meninos estudando pra eletricista e mecânico. Os dois menores ainda na escola primária. Gostava de pensar que Pedro ficaria feliz se pudesse vê-los. E que ainda a amaria, escondido, no fundo do mar. Nessas horas, o peito doía de saudade.
Naquela manhã, tinham saído cedo. Dia de vento de agosto. Céu muito azul. Mar meio encrespado. Promessa de peixe. De repente, o tempo mudou. O azul escureceu. O vento virou vendaval. As ondas, altas e enormes. A praia tão distante que nem se via. As companheiras olhavam-se quase em pânico. Teria chegado o dia delas? Não, não se entregariam assim fácil. Não, ela. Tratou de fazer as outras trabalharem em vez de perder tempo chorando.
Foi então que, entre um relâmpago e outro, viu a jangada. Próxima. Flutuando leve. E sobre ela, Pedro. O seu Pedro. Um não-sei-o-quê percorreu-lhe o corpo dos pés à cabeça. Teve vontade de lançar-se ao mar. De mergulhar nos braços do homem que amava. Do seu homem. E que a amava. Tanto. Ainda. Tinha certeza disso, agora. Sempre o soubera.
Nesse instante, quando já quase caía ao mar, percebeu o ardil. A armadilha de Iemanjá. A poderosa e ciumenta Rainha das Águas. Não, não se deixaria levar pela visão do seu amor. Não se deixaria morrer entre as ondas. Era filha de Iansã. E a tempestade lhe daria a força necessária para voltar.
Teve a impressão de que Pedro lhe sorria quando retomou o controle da jangada. E que a tempestade amainava à sua passagem. Não olhou para trás. Não viu se desaparecera, a jangada. O seu homem. Viu apenas que o mar estava novamente calmo e o céu azul e estrelado, quando chegaram à praia. E soube que vencera.
Viveu muitos anos ainda. Saindo antes do sol e voltando com as estrelas. A rede cheia de peixes. Os filhos crescidos. Formados. Às vezes, saíam com ela para o mar. Que tinham jeito pra coisa, os danados.
Nesses dias, quase sempre avistava uma jangada flutuando perto. E via o orgulho nos olhos de Pedro. E ouvia a sua voz lhe dizendo de amor. Mas isso guardava com ela. Como um tesouro. E nunca contou a ninguém.
Márcia Maia
***

consiglio non richiesto
ovunque vai
per favore
bada
a te stesso
abbi cura
il mondo
è vasto
e basta
una toccata
e fuga
-no di Bach -
un po' troppo
forte
che inciampi
e ti trovi
a terra
impotente
almeno
strafottente
Myra Landau
***

Miscigenação
Um bisavô
tinha parte
com o vento.
Durou pouco,
não chegou
aos quarenta.
A bisavó
era de pés
tão fincados
na terra,
que viveu cem.
Um outro
juntou ouro,
fama, poder.
A outra,
por pouco,
quase põe
tudo a perder.
Uma avó,
resignada,
fez filhos
e rezas.
A outra,
decidida,
filhos e
revolução.
Um avô era
poeta.
O outro era
padeiro.
O que no fim
dá no mesmo:
tudo pão.
Silvana Guimarães
***
Dívida
fui criada à semelhança de eva. minha primeira mãe, minha primeira verdade. e o resto da minha vida de incertezas.
afinal, meu Senhor, de quantas costelas fui feita? de quanta bondade e desapego? de quanto amor?
e aquele presente, Senhor, que me deste e se acabou? por que me fizeste sentir o gosto do fruto, para logo em seguida enfiá-lo garganta abaixo daquele que eu mal conhecia?
hoje ele passeia por aí, exibindo minha culpa em seu pescoço. um pomo de carne e osso, desafiando o meu destino. tão pequeno e perigoso.
e agora a pergunta derradeira, aquela que me aperta a alma, e te faz, para sempre, devedor:
como, diabos, foi parar a serpente em minha história, meu Senhor?
mariza Lourenço
[imagens george marks]








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mariza lourenço