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02/03/2009

para quem é criança. *:))

Conversa de Menino


O menino era tão bonito que dava pena ralhar por qualquer coisa.

Que fosse livre, então!

E era! Passava os dias empinando pipa, subindo em árvores e atentando os cachorros da vizinhança.

Tinha uma saúde de ferro, nunca precisara tomar remédio para baixar febre ou cortar infecção. Comia de tudo e não tinha desses enjoamentos de recusar brócolis e bife de fígado.

Um encanto de criança e, no entanto, em toda a sua pequena existência, jamais pronunciara uma única palavra. E não era doença, não. Reviraram o pobre menino de ponta-cabeça e nada de anormal foi constatado que justificasse a mudez.

Diziam que ele falava com os olhos, com as mãos, com o corpo inteiro. Quando sentia dor, fazia careta. Se a fome lhe vinha, apontava a barriga. Chorar não chorava, só quando pisava em caco de vidro ou prego enferrujado.

Os amiguinhos, com o tempo, aprenderam a identificar os gestos do companheiro e comunicavam-se com ele de um jeito muito particular, que só criança entende. Os adultos, ao contrário, irritavam-se com a teimosia e lhe davam uns petelecos.

Ele não ligava e continuava mudinho da silva.

As crianças das redondezas juravam de pés juntos que ele falava com os bichos lá na linguagem deles e que os animaizinhos o entendiam. Mas menino mente tanto que os adultos não se preocupavam com isso, mesmo que aos olhos de toda a cidade fosse visível a adoração dos animais por aquele menino bonito.

Na casa do garoto a situação não era lá muito boa. Os pais brigavam demais e diziam “coisas” que ele não compreendia. Só sabia que dentro de casa tudo era sempre muito escuro e triste. A mãe era triste, o pai era triste, a irmã era triste. Até o cachorro era triste. E ele... Ele era mudo.

Certo dia foi embora de casa sem se despedir de ninguém. Nem do cachorro. Foi para bem longe e nunca mais voltou.

O tempo passou, as crianças cresceram e deixaram de compreender a linguagem de criança e muitos casos foram inventados a respeito do sumiço do menino que não falava: Uns diziam que ele havia ido embora de carona com um anjo, outros, que tinha sido levado pelos ciganos.

O menino virou história bonita de se contar. Bonita e misteriosa. E ficou famoso! Na pracinha onde brincava com os bichos foi erguida uma estátua em sua homenagem. E mais casos foram inventados. Agora já corre boato de que ele anda fazendo milagres.

Quem ri disso tudo é Filó, a andorinha que todos os anos costuma passar o verão na cidadezinha. Sempre chega com notícias fresquinhas do menino:

— Ele virou doutor de bicho, como não?

— Doutor de bicho?

— É, inclusive deu um jeito naquela ferida que eu tinha no cocuruto.

— Ele volta?

— Diz ele que não.

— Ele agora fala? Deixou de ser mudo?

— Nunca foi, ora! É que ele só falava da boca pra dentro. E continua assim.

— Mudo?

— Não! Continua falando da boca pra dentro. Mas a gente que é passarinho, entende.

— Ah...

— Vamos dar uma volta?

As duas andorinhas bateram asas e foram passear pela cidade. Ela havia crescido, mas as histórias, as invencionices, as maldades e as brigas, como em todo canto, eram as mesmas.

Filó sentiu-se cansada e com desejo de ir embora. Antes, porém, avistou dois garotos brincando aos pés da estátua do menino bonito. Nada diziam.

A andorinha, então, aproximou-se e entre os três iniciou-se animada conversa.

E falaram bastante e riram demais, mas daquele jeito que somente passarinho e criança entende:

da boca para dentro e com todos os corações refletidos nos olhos.

mariza lourenço


[imagem cory docken]

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