para quem é criança. *:))
Conversa de MeninoO menino era tão bonito que dava pena ralhar por qualquer coisa.
Que fosse livre, então!
E era! Passava os dias empinando pipa, subindo em árvores e atentando os cachorros da vizinhança.
Tinha uma saúde de ferro, nunca precisara tomar remédio para baixar febre ou cortar infecção. Comia de tudo e não tinha desses enjoamentos de recusar brócolis e bife de fígado.
Um encanto de criança e, no entanto, em toda a sua pequena existência, jamais pronunciara uma única palavra. E não era doença, não. Reviraram o pobre menino de ponta-cabeça e nada de anormal foi constatado que justificasse a mudez.
Diziam que ele falava com os olhos, com as mãos, com o corpo inteiro. Quando sentia dor, fazia careta. Se a fome lhe vinha, apontava a barriga. Chorar não chorava, só quando pisava em caco de vidro ou prego enferrujado.
Os amiguinhos, com o tempo, aprenderam a identificar os gestos do companheiro e comunicavam-se com ele de um jeito muito particular, que só criança entende. Os adultos, ao contrário, irritavam-se com a teimosia e lhe davam uns petelecos.
Ele não ligava e continuava mudinho da silva.
As crianças das redondezas juravam de pés juntos que ele falava com os bichos lá na linguagem deles e que os animaizinhos o entendiam. Mas menino mente tanto que os adultos não se preocupavam com isso, mesmo que aos olhos de toda a cidade fosse visível a adoração dos animais por aquele menino bonito.
Na casa do garoto a situação não era lá muito boa. Os pais brigavam demais e diziam “coisas” que ele não compreendia. Só sabia que dentro de casa tudo era sempre muito escuro e triste. A mãe era triste, o pai era triste, a irmã era triste. Até o cachorro era triste. E ele... Ele era mudo.
Certo dia foi embora de casa sem se despedir de ninguém. Nem do cachorro. Foi para bem longe e nunca mais voltou.
O tempo passou, as crianças cresceram e deixaram de compreender a linguagem de criança e muitos casos foram inventados a respeito do sumiço do menino que não falava: Uns diziam que ele havia ido embora de carona com um anjo, outros, que tinha sido levado pelos ciganos.
O menino virou história bonita de se contar. Bonita e misteriosa. E ficou famoso! Na pracinha onde brincava com os bichos foi erguida uma estátua em sua homenagem. E mais casos foram inventados. Agora já corre boato de que ele anda fazendo milagres.
Quem ri disso tudo é Filó, a andorinha que todos os anos costuma passar o verão na cidadezinha. Sempre chega com notícias fresquinhas do menino:
— Ele virou doutor de bicho, como não?
— Doutor de bicho?
— É, inclusive deu um jeito naquela ferida que eu tinha no cocuruto.
— Ele volta?
— Diz ele que não.
— Ele agora fala? Deixou de ser mudo?
— Nunca foi, ora! É que ele só falava da boca pra dentro. E continua assim.
— Mudo?
— Não! Continua falando da boca pra dentro. Mas a gente que é passarinho, entende.
— Ah...
— Vamos dar uma volta?
As duas andorinhas bateram asas e foram passear pela cidade. Ela havia crescido, mas as histórias, as invencionices, as maldades e as brigas, como em todo canto, eram as mesmas.
Filó sentiu-se cansada e com desejo de ir embora. Antes, porém, avistou dois garotos brincando aos pés da estátua do menino bonito. Nada diziam.
A andorinha, então, aproximou-se e entre os três iniciou-se animada conversa.
E falaram bastante e riram demais, mas daquele jeito que somente passarinho e criança entende:
da boca para dentro e com todos os corações refletidos nos olhos.
mariza lourenço
[imagem cory docken]








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