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15/04/2009

de cinzas

A QUARTA-FEIRA

Chegou em casa com quatro dias de atraso.

Ela estava na cozinha, abrindo o forno, e nem se virou quando ele desabou de cansaço sobre a cadeira de fórmica.

– Verinha, que estranho, tem um táxi parado...

– Vá lavar as mãos. A lasagna ficou pronta.

– Verita, eu...

– Tá sem fome? Então aproveite pra tomar um banho completo. Seu perfume está empesteando a casa.

– Vera...

– Vou deixar a lasagna no forno. Depois de comer não se esqueça de colocar na geladeira, senão azeda.

– Não vai me ouvir?

Ainda sem se virar para olhá-lo, Vera Lúcia colocou os óculos escuros, um pequeno chapéu de sol e pegou as duas malas que estavam ao lado do armário.

– Tem razão, carro parado na porta de casa é sempre estranho...

– Onde você pensa que vai?

– Não se esqueça de colocar a comida na geladeira. E tome um banho! Que fedor, credo!

Vera Lúcia fechou a porta atrás de si, ganhou a calçada e entrou no táxi. Tirou os óculos que, até aquele momento, haviam cumprido fielmente o papel de ocultar dois olhos vermelhos de choro.

– Pra onde, dona?

O táxi partiu aos solavancos, deixou a pequena vila e, em pouco tempo, misturou-se ao tráfego intenso da Avenida Brasil.

A rua, sempre tão calma, escaldava sob o calor da quarta-feira de cinzas.

Dentro da casa, construida há tantos anos, um pirata chorava feito menino:

caido no chão

***

FIM
(pra nunca mais falar disso)

No começo era doce, como delicada sobremesa que se saboreia com gosto e desliza garganta abaixo, aveludada e macia.

Mas a receita desandou sob as mãos pesadas de tanto mexer panelas. E os ouvidos, como os de um mercador, acostumaram-se à cantilena irritante de vincos tortos e colarinhos amassados.

Os olhos ficaram baços e os lábios perderam o brilho, esquecendo-se do primeiro beijo e dos agarramentos ao pé da escada.

E o que era doce acabou-se em travo, de fruto verde e amargo.

A casa, outrora alegre, abria-se agora aos conselhos de qualquer tia que, a pretexto de visita, só sabia contar do casamento desfeito de uma prima e de como, na família, mulher largada tornava-se propriedade coletiva.

E o que era doce acabou-se em medo.

Todas as vontades de recomeços se perderam nos vãos ordinários das madrugadas e o que restou foi lembrança pequena e morta, sepultada de qualquer jeito sob a lápide muda de um colchão de molas.

E o que era doce acabou-se em nada.


mariza lourenço


nota da autora: prometo solenemente que, se houver próxima postagem, não escreverei sobre desenlaces matrimoniais. por ora, dou por encerrado o assunto... hehe.

[imagem george marks]

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