de cinzas
A QUARTA-FEIRA Chegou em casa com quatro dias de atraso.
Ela estava na cozinha, abrindo o forno, e nem se virou quando ele desabou de cansaço sobre a cadeira de fórmica.
– Verinha, que estranho, tem um táxi parado...
– Vá lavar as mãos. A lasagna ficou pronta.
– Verita, eu...
– Tá sem fome? Então aproveite pra tomar um banho completo. Seu perfume está empesteando a casa.
– Vera...
– Vou deixar a lasagna no forno. Depois de comer não se esqueça de colocar na geladeira, senão azeda.
– Não vai me ouvir?
Ainda sem se virar para olhá-lo, Vera Lúcia colocou os óculos escuros, um pequeno chapéu de sol e pegou as duas malas que estavam ao lado do armário.
– Tem razão, carro parado na porta de casa é sempre estranho...
– Onde você pensa que vai?
– Não se esqueça de colocar a comida na geladeira. E tome um banho! Que fedor, credo!
Vera Lúcia fechou a porta atrás de si, ganhou a calçada e entrou no táxi. Tirou os óculos que, até aquele momento, haviam cumprido fielmente o papel de ocultar dois olhos vermelhos de choro.
– Pra onde, dona?
O táxi partiu aos solavancos, deixou a pequena vila e, em pouco tempo, misturou-se ao tráfego intenso da Avenida Brasil.
A rua, sempre tão calma, escaldava sob o calor da quarta-feira de cinzas.
Dentro da casa, construida há tantos anos, um pirata chorava feito menino:
caido no chão
***
FIM
(pra nunca mais falar disso)
No começo era doce, como delicada sobremesa que se saboreia com gosto e desliza garganta abaixo, aveludada e macia.
Mas a receita desandou sob as mãos pesadas de tanto mexer panelas. E os ouvidos, como os de um mercador, acostumaram-se à cantilena irritante de vincos tortos e colarinhos amassados.
Os olhos ficaram baços e os lábios perderam o brilho, esquecendo-se do primeiro beijo e dos agarramentos ao pé da escada.
E o que era doce acabou-se em travo, de fruto verde e amargo.
A casa, outrora alegre, abria-se agora aos conselhos de qualquer tia que, a pretexto de visita, só sabia contar do casamento desfeito de uma prima e de como, na família, mulher largada tornava-se propriedade coletiva.
E o que era doce acabou-se em medo.
Todas as vontades de recomeços se perderam nos vãos ordinários das madrugadas e o que restou foi lembrança pequena e morta, sepultada de qualquer jeito sob a lápide muda de um colchão de molas.
E o que era doce acabou-se em nada.
mariza lourenço
nota da autora: prometo solenemente que, se houver próxima postagem, não escreverei sobre desenlaces matrimoniais. por ora, dou por encerrado o assunto... hehe.
[imagem george marks]








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