de uma vida inteira
[imagem steve debenport]
O Trem
Eu esperava que ele chegasse apitando na curva da estrada. Pra me matar de tanto susto. Eu, que nem sabia o significado das palavras, já sentia que aquilo era desejo de namorar. Minha boca era virgem, meu corpo inteiro era virgem e meus ouvidos nunca tinham escutado aquelas coisinhas que todo mundo diz quando fica apaixonado. Mas o frio na barriga eu sentia, o vai e vem no baixo-ventre eu sentia. A vermelhidão no rosto e nos seios e nas mãos eu sentia. Só não sabia explicar.
E então ele chegou apitando na curva da estrada. E depois dele, outro. E mais outro. E tantos, por tanto tempo. Tantos sustos e mortes. Tanta alegria e espanto. Tanto desassossego. E meu corpo já não era virgem. E meus ouvidos já haviam se acomodado às palavras e coisinhas que todo mundo diz quando está apaixonado.
Hoje ele ainda chega feito o primeiro, mas não apita, nem me mata de tanto susto. Ele vem do jeito dele. A curva da estrada virou meu canto escondido. Os meus ouvidos se transformaram em olhos para enxergar além do barulho e das evidências. Além das montanhas, onde tantas vezes eu subi. Além do mar, onde tantas vezes me afoguei. E o desassossego de menina virou calor de mulher madura. E o vai e vem no ventre, vontade de quem já pariu e recebeu tantos amores.
Um dia ele deixará de vir e eu, de esperar, de ouvir e reconhecer na curva da estrada um movimento diferente. E então serei só calma. E minha alma será somente voo. E o céu já não estará tão longe e as montanhas não serão nada além de uma lembrança encantada. E em meu ventre livre o destino já estará selado.
E cumprido.
mariza lourenço
Eu esperava que ele chegasse apitando na curva da estrada. Pra me matar de tanto susto. Eu, que nem sabia o significado das palavras, já sentia que aquilo era desejo de namorar. Minha boca era virgem, meu corpo inteiro era virgem e meus ouvidos nunca tinham escutado aquelas coisinhas que todo mundo diz quando fica apaixonado. Mas o frio na barriga eu sentia, o vai e vem no baixo-ventre eu sentia. A vermelhidão no rosto e nos seios e nas mãos eu sentia. Só não sabia explicar.
E então ele chegou apitando na curva da estrada. E depois dele, outro. E mais outro. E tantos, por tanto tempo. Tantos sustos e mortes. Tanta alegria e espanto. Tanto desassossego. E meu corpo já não era virgem. E meus ouvidos já haviam se acomodado às palavras e coisinhas que todo mundo diz quando está apaixonado.
Hoje ele ainda chega feito o primeiro, mas não apita, nem me mata de tanto susto. Ele vem do jeito dele. A curva da estrada virou meu canto escondido. Os meus ouvidos se transformaram em olhos para enxergar além do barulho e das evidências. Além das montanhas, onde tantas vezes eu subi. Além do mar, onde tantas vezes me afoguei. E o desassossego de menina virou calor de mulher madura. E o vai e vem no ventre, vontade de quem já pariu e recebeu tantos amores.
Um dia ele deixará de vir e eu, de esperar, de ouvir e reconhecer na curva da estrada um movimento diferente. E então serei só calma. E minha alma será somente voo. E o céu já não estará tão longe e as montanhas não serão nada além de uma lembrança encantada. E em meu ventre livre o destino já estará selado.
E cumprido.
mariza lourenço
notas da autora:
1. esse é daqueles textos que eu escrevo, reviso, reescrevo, reviso e nunca me dou por satisfeita. sempre há uma mudança, sempre há uma palavra sobrando, sempre há uma vírgula fora do lugar. quem sabe, um dia, eu consiga terminá-lo de vez.
2. eu me perco por uma boa música e não abro mão de ouvi-la enquanto leio, enquanto posto, enquanto escrevo. quando atualizo meu blogue, também atualizo meu player com a música que, naquele momento, traduza em parte o que sinto. a música escolhida de hoje, do Supertramp, é uma homenagem ao meu passado. ele bem que merece... *;)








0 comentários:
seja bem-vindo, bem-vinda.
será um prazer ler e responder seu comentário, no entanto, optei por não aceitar comentários anônimos, ofensivos ou que, de alguma maneira, possam constranger aqueles que gentilmente se dispõem a me visitar.
caso prefira comentar ao 'pé d'ouvido' clique aqui.
grata,
mariza lourenço