pequenas histórias
(sem glamour. e quem precisa dele, afinal?)Maria Rita
Eu não sinto muito!
Eu não sinto nada! As pernas, os olhos, a boca. Nada! Desde a última visita de Maria Rita. Tão estranha. Tão linda.
Há mais de ano meu coração desgarrou e foi parar em lugar incerto e não sabido. À vezes o escuto num choro assustado, bem longe daqui.
Foi no quarto domingo e ela ali, parada, com um jeito sem graça no corpo, segurando o menino. Não me olhava na cara. É o sol, incomoda demais, ela dizia.
Depois disso, nunca mais. Nunca mais Maria Rita. Nunca mais o menino.
Não sei quanto me resta de pena. Dizem que é pouca. Pra mim não acaba nunca. Saio amanhã. Volto depois. Até que venha a hora de não sair nunca mais.
Nunca mais Maria Rita. Nunca mais meu menino. Nunca mais a promessa de tomar tento na vida.
Que vida? Eu morri há mais de ano, no quarto domingo, na última visita de Maria Rita.
Neuza Sueli
Bem que eu gosto desta vida, antes eu nem gostava, sentia muita falta dos meninos, da minha mãe, até do meu pai com aquele jeito sempre doente. Mas fui tomando gosto por estas bandas e o meu povo foi todo morrendo.
Meu pai foi o último. Ele e aquele jeito doente dele.
Acho que passei mais da metade da vida grudada nesta janela. Quanta menina saiu daqui com promessa de casamento. Eu também casei um dia. Tem tanto tempo, nem lembro direito. Ele foi embora, vestido de branco. Camisa bem passada. Eu gostava de cuidar das coisas dele, mas ele foi embora e eu tomei gosto por esta janela. No começo era só espera, depois acabei esquecendo os motivos. E fui ficando. Não ligo pra dinheiro, as meninas ligam, eu não. Gosto mesmo é de olhar a vida dos outros. Tem dia que eu nem trabalho. Às vezes vem uma moça. Ela me dá presente e diz que queria aprender certas coisas. Eu ralho com ela: moça, tá pensando que é bonita esta vida? Volta pra sua casa, reza um credo. Isso é falta de oração. Ela vai embora, mas volta, envergonhada, dizendo que sente umas coisas esquisitas dentro dela. Tenho pena. Tão bonita e querendo aprender a ser feliz comigo.
Logo comigo: a piada mais antiga do puteiro.
A Casa
A gente era feliz, eu e ele, em nossa casa comprada a prestação. Não tivemos filhos, que Deus achou melhor secar meu útero. Em 80 ele arrumou outra e uma criança, que eu ajudei a criar com amor de mãe. Porque se era dele, então, era minha.
A gente era feliz em nossa casa, ele, eu, o menino. Até que ele inventou de beber todo dia. Até que ele inventou de ficar largado num canto, cheio de desgosto e tristeza.
Semana passada ele morreu e seu filho disse baixinho "mãe, você não merecia esse sofrimento todo". Eu olhei para ele, tão igual ao homem que dormia dentro do caixão, e me lembrei de um dia muito claro, e do moço que me acenava de longe, com as chaves de nossa casa entre os dedos da mão.
(hoje paguei a última prestação)
notas da autora:
1. essas pequenas histórias são reais e fazem parte da minha vivência forense.
2. em relação ao conto Maria Rita, perdi as contas de quantas cartas levei ao correio a pedido do meu cliente. todas elas retornaram com carimbo de destinatário desconhecido.
mariza lourenço
[imagem dick luria]








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mariza lourenço