a violência de cada dia
Violência e Silêncio
sempre digo a mim mesma, e disso tenho certeza, que há muito mais choro que riso na causa que escolhi abraçar. e embora as pequenas vitórias me sejam agradáveis, ainda não consegui me acostumar às pancadas. não as que, eventualmente, levo, mas as que vejo outras pessoas levarem, por desconhecimento, por falta de apoio, por falta de socorro, por falta de vontade e disposição de quem teria obrigação de socorrê-las em seus infortúnios.
dona R. me foi apresentada há duas semanas atrás. negra, pobre e iletrada, dona R. engrossa a fileira de seres humanos discriminados e excluidos em razão do gênero, da cor e de sua condição social. não bastasse isso, dona R. sofre diariamente, e em silêncio, um dos piores tipos de violência doméstica: a moral e psicológica. diariamente, seu marido, um típico agressor, truculento e dependente químico, a maltrata com palavras, com ameaças, com desrespeito, desprezo e desamor. dona R. é tratada como lixo, dentro e fora de casa. como se sua cor e sua pobreza fossem sinônimas de doença contagiosa. como se seu gênero não merecesse outra coisa senão desprezo e agressão.
tudo muito triste, não é? mas existe tristeza maior, creiam-me. e por tristeza maior não me refiro àquela que se sobreponha, em violência, à sofrida por dona R.. a tristeza maior é ouvir de gente tão privilegiada quanto eu pela vida, de que dona R. sofre violência porque quer. "por que não se separa?" "por que não dá um basta?" "por que continua 'abrindo as pernas' para esse homem?" "por que se submete?"
a essas pessoas lamento informar, como já o fiz, que dona R. se submete porque a ela não restaram recursos psicológicos para ser de outra maneira. dona R. é uma sombra do que foi e poderia ter sido. dona R. teve sua personalidade descaracterizada pelos maus tratos. dona R. não teve apoio, conhecimento, nem informações suficientes para se desvencilhar de sua situação. dona R. deixou de existir para garantir a sobrevivência de seus filhos e de seu corpo, porque sua alma, essa já foi.
"ora, Mariza, e a lei?"
ora, meu caro, minha cara, a lei existe para quem a conhece. e quem a conhece, por uma questão de cidadania, de humana solidariedade, deveria ter como princípio, orientar aqueles que não dispõem do mesmo conhecimento.
e você, querido concidadão, estimada concidadã, em sua condição privilegiada de conhecedor(a) das lei deste País, a quantas pessoas orientou a respeito de seus direitos?
pense nisso. *;)
mariza lourenço
sempre digo a mim mesma, e disso tenho certeza, que há muito mais choro que riso na causa que escolhi abraçar. e embora as pequenas vitórias me sejam agradáveis, ainda não consegui me acostumar às pancadas. não as que, eventualmente, levo, mas as que vejo outras pessoas levarem, por desconhecimento, por falta de apoio, por falta de socorro, por falta de vontade e disposição de quem teria obrigação de socorrê-las em seus infortúnios.
dona R. me foi apresentada há duas semanas atrás. negra, pobre e iletrada, dona R. engrossa a fileira de seres humanos discriminados e excluidos em razão do gênero, da cor e de sua condição social. não bastasse isso, dona R. sofre diariamente, e em silêncio, um dos piores tipos de violência doméstica: a moral e psicológica. diariamente, seu marido, um típico agressor, truculento e dependente químico, a maltrata com palavras, com ameaças, com desrespeito, desprezo e desamor. dona R. é tratada como lixo, dentro e fora de casa. como se sua cor e sua pobreza fossem sinônimas de doença contagiosa. como se seu gênero não merecesse outra coisa senão desprezo e agressão.
tudo muito triste, não é? mas existe tristeza maior, creiam-me. e por tristeza maior não me refiro àquela que se sobreponha, em violência, à sofrida por dona R.. a tristeza maior é ouvir de gente tão privilegiada quanto eu pela vida, de que dona R. sofre violência porque quer. "por que não se separa?" "por que não dá um basta?" "por que continua 'abrindo as pernas' para esse homem?" "por que se submete?"
a essas pessoas lamento informar, como já o fiz, que dona R. se submete porque a ela não restaram recursos psicológicos para ser de outra maneira. dona R. é uma sombra do que foi e poderia ter sido. dona R. teve sua personalidade descaracterizada pelos maus tratos. dona R. não teve apoio, conhecimento, nem informações suficientes para se desvencilhar de sua situação. dona R. deixou de existir para garantir a sobrevivência de seus filhos e de seu corpo, porque sua alma, essa já foi.
"ora, Mariza, e a lei?"
ora, meu caro, minha cara, a lei existe para quem a conhece. e quem a conhece, por uma questão de cidadania, de humana solidariedade, deveria ter como princípio, orientar aqueles que não dispõem do mesmo conhecimento.
e você, querido concidadão, estimada concidadã, em sua condição privilegiada de conhecedor(a) das lei deste País, a quantas pessoas orientou a respeito de seus direitos?
pense nisso. *;)
mariza lourenço








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