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02/04/2010

Transfiguração

magnificat

comecei a sangrar aos dezoito dias de março de mil novecentos e oitenta e nove. dezessete e trinta e cinco. em dias que antecederam a ressurreição. quando Jesus, Maria e José vestiam-se de roxo e meu vestido era branco. alguma coisa emprestada. alguma coisa azul.

só sei que o sangue era lento e farto.

só sei que era dor e, depois, nada. e que retornou, sucessivas e incontáveis vezes. até eu não me importar.

quarenta dias e quarenta noites de jejum. e no deserto o pecado roeu meus ossos. e em minha cama a carne se desfez.

e um verbo entranhou-se às paredes de meu útero. e depois dele, o outro.

nunca mais pari.

só sei que durou dez anos.

e que meus olhos ainda vertem o sangue transformado em água.


mariza lourenço


[imagem b2m productions]

12 comentários:

Antonio Siqueira disse...

"não haverá mulher mais amada nesse mundo
não haverá horizonte azul de outono que se compare ao seu sorriso
não haverá amor como o meu
como o teu
não haverá rosa que seja mais intensa em cor, aroma e forma
como tu
como tua boca a me engolir desesperadamente
não haverá pecado que me assuste
correnteza que me leve
não haverá céu que te cubra
que seja digno de sua beleza
e se as natureza me desafiar
acordarei todos os vulcões
e todas as tempestades
erguerei o mar
contra quem te fizer mal
e te levarei comigo
para o imenso cosmo da minha unica e infinita vontade"

Escrevi esses versos pra vc ontem, em tempo real, rs...vc é algo que não é desse mundo.

te amo...para além desse mundo.

Antonioni

1:01 AM
Benno disse...

Na verdade, o que começou um dia, jamais termina por deixar seu frutos suas lembranças. Parir é só um começo, pois há de se continuar parindo a vida ao se alimentar educar e dar asas que jamais serão totalmente suas pois quem tem mãe jamais será sozinho no mundo.
Lindo e prenhe de significado. Beijos e linda páscoa.
Benno

7:57 AM
layla lauar disse...

Carne e sangue - morte e dor

... e fez-se o Verbo

Renascida a Poeta em tempos de Páscoa e que assim seja por todo o sempre!

Sem palavras que possam traduzir minha emoção - lindo!

beijos querida

12:40 PM
Liene disse...

Oi Mariza!

E aqui me ponho a decifrar as entrelinhas, o que não foi posto à transparência do véu. E engulo seco por saber não ser tão distante assim.

Lindo sempre...

Já estou com saudades da tua linda presença!

Beijinhos,

Liene

1:36 PM
aluisio martins disse...

Quanta gravidez em suas palavras férteis. Um sangramento poético que banha e lava o mundo em vastos campos úteros da mãe natureza vida ávida por mais vida.
Bendita sejas!

1:58 PM
Márcio Almeida Júnior disse...

Mariza,
Para mim, o mais admirável desse texto, entre muitas qualidades dignas de admiração, é sua capacidade de tecer uma narrativa própria e amarrá-la ao simbolismo cristão, tomando em especial alguns elementos bíblicos evidenciados nestes dias de Semana Santa. Feliz Ressureição.

4:18 PM
Neuzza Pinhero disse...

sempre há de ser carne e sangue, Mariza.

9:36 PM
Kanauã Kaluanã disse...

Mariza,

É sempre precioso encontrar espaços com tamanha qualidade. Sua prosa é como uma proeza que se faz sangrar do lápis quando este entreabre uma entranha. Letras então como seiva no pálido papel.

Parabéns.

Beijos, com esmero.
.
.
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Katyuscia

11:22 AM
goldenboy disse...

de tão poente me fiz teu sol
de sol atrás da montanha
me fiz esconder
esperando dia
dia...parecer

12:44 AM
Márcia Maia disse...

Gêmela, eu relembro a Com Texto aqui e vc vai lá no meu itinerário e relembra nossas prosas de quarta também.
Saudades daquele tempo, Flor.;))

Beijo e beijo.

4:06 PM
Sylvio de Alencar. disse...

Tão criativo quanto sua palavras, é como se definiu em seu perfil.
Um prazer conhecê-la.

(Espero tenha tido uma boa Páscoa).
:)

8:57 PM
Tianne disse...

Lindo!!! Uma mulher que prosa poesia e sangra milagres vermelhos.

8:00 AM

seja bem-vindo, bem-vinda.

será um prazer ler e responder seu comentário, no entanto, optei por não aceitar comentários anônimos, ofensivos ou que, de alguma maneira, possam constranger aqueles que gentilmente se dispõem a me visitar.

caso prefira comentar ao 'pé d'ouvido' clique aqui.

grata,

mariza lourenço

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