de juízos e juízes: assim caminha a humanidade.
Aos 15 anos Mariposinha estreou na vida; aos 25 já estava aposentada.
Mudou de nome e foi dar com os costados em uma cidadezinha do interior paulista. Mariposinha se deu bem: casou-se com o Juiz de Paz.
Maria Cecília é dona de casa exemplar, católica praticante, boa vizinha e voluntária no centro de assistência à infância desamparada. Maria Cecília sabe, como ninguém, da vida alheia. Maria Cecília é respeitada por todos, sobretudo, por conseguir livrar a cidade de certas figuras de reputação duvidosa.
Do passado, a bela Maria Cecília não se recorda, nem mesmo quando, ofendida, repudia as propostas do marido:
— Só por hoje, só desta vez... Finge que é minha Mariposinha...
Mudou de nome e foi dar com os costados em uma cidadezinha do interior paulista. Mariposinha se deu bem: casou-se com o Juiz de Paz.
Maria Cecília é dona de casa exemplar, católica praticante, boa vizinha e voluntária no centro de assistência à infância desamparada. Maria Cecília sabe, como ninguém, da vida alheia. Maria Cecília é respeitada por todos, sobretudo, por conseguir livrar a cidade de certas figuras de reputação duvidosa.
Do passado, a bela Maria Cecília não se recorda, nem mesmo quando, ofendida, repudia as propostas do marido:
— Só por hoje, só desta vez... Finge que é minha Mariposinha...
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— Ledosmira, minha filha, você não se parece nada comigo. Desligue esse telefone e vá preparar a janta de seu marido.
— Mas, mãe, ele anda me ameaçando...
— Porque você é bocuda, Ledosmira. Se fosse seu pai, já viu, né?
— Mãe, é sério, tô com medo.
— Não deixe seu marido mais nervoso. Outro você não acha. Desligue esse telefone.
— Mas, mãe, ele anda me ameaçando...
— Porque você é bocuda, Ledosmira. Se fosse seu pai, já viu, né?
— Mãe, é sério, tô com medo.
— Não deixe seu marido mais nervoso. Outro você não acha. Desligue esse telefone.
Ledosmira nunca mais ligou.
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— Por favor, aguardem mais um pouco, meu marido irá atendê-las — disse a moça sorridente e gentil.
— Notou o jeito de vagabunda?
— Fala baixo... Notei, nossa...
— Pudera, com aquele peitão todo siliconado.
— E, ainda por cima, é casada com o Doutor.
— É, deve ser chifrudo.
— Coitado...
— Coitado nada, com tanta mulher honesta por aí, quem mandou escolher uma vagabunda?
— E a gente, aqui, solteira... É, tem que tomar chifre mesmo.
— Notou o jeito de vagabunda?
— Fala baixo... Notei, nossa...
— Pudera, com aquele peitão todo siliconado.
— E, ainda por cima, é casada com o Doutor.
— É, deve ser chifrudo.
— Coitado...
— Coitado nada, com tanta mulher honesta por aí, quem mandou escolher uma vagabunda?
— E a gente, aqui, solteira... É, tem que tomar chifre mesmo.
*****
— Estou impressionada com seu currículo, que beleza! Li que você é comprometida e sem filhos. Pretende tê-los logo?
— Pra falar a verdade eu e Marianna não resolvemos ainda...
— Marianna?
— Sim, Marianna.
— Pois é, como eu ia dizendo seu currículo é uma beleza, mas está muito acima do cargo oferecido.
— Muito?
— Muito!
— Ah...
mariza lourenço— Pra falar a verdade eu e Marianna não resolvemos ainda...
— Marianna?
— Sim, Marianna.
— Pois é, como eu ia dizendo seu currículo é uma beleza, mas está muito acima do cargo oferecido.
— Muito?
— Muito!
— Ah...
[imagem de chad j. shaffer]









4 comentários:
Mariza,
5:40 PMsempre haverá rótulos, preconceitos, estigmas e, sem vitimizações, sempre haverá mariposas da vez.
Lembrei agora de um dos primeiros textos teus que lí.
Eram pequenas histórias cotidianas assim.
grande abraço
são deliciosos esses seus mini-contos...
2:21 PMé uma arte saber dizer tanto com tão poucas palavras ;)
adorei todos.
beijos amiga
Que beleza. A verdade dos preconceitos mostrada de forma nua e crua e com um humor, mostrando bem o ridiculo da situação. A melhor forma de denunciar é através do humor, citando Mark Twain : Against the assault of laughter, nothing can stand. Beijos
9:19 AMA hipocrisia está aí, acho que desde as cavernas, desde que o homem sentiu a necessidade de se organizar socialmente e deixou de ser um símio desengonçado. O que mais me impressionou em termos de hipocrisia, foi quando resolvi procurar meu primeiro trabalho aos 16 anos. Empreguei-me como jornaleiro no centro do bairro onde moro. Em menos de duas semanas, meu saudoso pai me ordenara que saísse deste emprego, pois era "vergonhoso". Que eu só poderia estar querendo provocá-lo. Mas não era o meu pai, tadinho. Eram as pessoas próximas e nem tão próximas assim que já comentavam o fato de eu, filho de uma pessoa conhecida na comunidade, estar trabalhando meio expediente em uma atividade "tão pouco nobre" ( como se eles não fossem capazes de proverem o sustento de sua prole). Curiosamente, foi o emprego que mais gostei e fiquei por lá por bons dois anos. Meu pai acordou logo para realidade, pois era um homem notável. Ainda sonho em ter uma banca de jornal, revistas, livros, cds...salvar essa demanda das garras da web, não?
9:57 PMÉ bem provável que esse comportamento típico da classe média brasileira seja mais uma herança não bendita da velha mentalidade da casa grande, nas antigas fazendas, quando as famílias abastadas preparavam seus filhos para serem bacharéis e deixavam para os escravos as outras tarefas. Mas isso é um pequeno cisco, uma pequena história, um ‘quase nada perto do oceano de preconceito e hipocrisia que inunda a nossa sociedade. Sejamos felizes e aprendamos com nossos erros.
Mariza, que sua militância e sua alma ativista transponham os muros desse mar de coisas estúpidas que vêm acontecendo há séculos.
Beijo
seja bem-vindo, bem-vinda.
será um prazer ler e responder seu comentário, no entanto, optei por não aceitar comentários anônimos, ofensivos ou que, de alguma maneira, possam constranger aqueles que gentilmente se dispõem a me visitar.
caso prefira comentar ao 'pé d'ouvido' clique aqui.
grata,
mariza lourenço