40 minutos...
vai me curar? - não, vai te deixar melhor, mais equilibrada. mais feliz? - não, vai te deixar melhor, mais equilibrada. e se eu tomar duas? - não recomendo. só uma, então? - sim, duas vezes ao dia, pela manhã e à noite. quero ficar feliz. - não tome duas. e se eu tomar três? - não recomendo. e se eu quiser morrer? - você não quer. quero. - tome uma só. anote aí em seu caderninho de papel reciclado que uma doida resolveu morrer e você se isenta de qualquer culpa perante os órgãos competentes. - e essa necessidade de falar. que você faz questão de cobrar, tudo bem, tudo bem, é seu ofício, o meu é lhe dar arrimo para pesquisas, então, eu lhe sirvo, sirva-me também, meu barqueiro. - caronte? pra falar a verdade só o que me ocupa agora é esse relógio insistente. 40 minutos me parece tempo demais pra desfiar minhas tristezas, o rosário dá conta do recado em menos tempo. - impossível. talvez, mas ele me ocupa, o relógio, com seus ponteiros marcando minhas incongruências, medindo minhas lacunas. não dá, tenho páginas demais pra uma voz tão impotente. e ouvidos de mercador. - eu te ouço. então coloca a mão aqui, neste buraco trêmulo, neste luto que oração nenhuma consegue levar. - dê um tempo, então. todo do mundo, é o que mais tenho, afinal, numa vida de arremedos. eu faria bonito num espetáculo circense, uma lilith arrependida e barbarda. e eu daria a adão, se tivesse existido, todo o meu poderio.
- você não quer...
- o que?
- tomar uma.
- tomar uma.
mariza lourenço
[imagem de Erik Snyder]









8 comentários:
te entendo, eu por mim tomaria muito mais!!!!
4:23 AMformidavelmente bem escrito!
um grande abraço
você conseguiu fazer um jogo de palavras muito inteligente!
2:10 PMMeus parabéns!
Bia
tudo o que a gente quer é alguma coisa para tomar e esquecer de tudo, mas as coisas que tomamos não nos fazem esquecer das coisas que queremos esquecer, só fazemos esquecer de nós mesmos. enquanto o efeito não passa, a gente não existe... quando o efeito passa, tudo volta e pior, muito pior que tudo, aquele tempo em que a gente se esqueceu da gente deixou de existir e tudo se passa como se não tivemos tomado nada. daí, tomos dois, e nos esquecemos de nós mesmo pelo dobro do tempo... e quando vemos que apenas fizemos sumir o dobro do tempo e que tudo continua a doer como sempre doeu, tomamos o vidro inteiro e multiplicamos o tempo esquecido por infinito, dormindo o sono mais profundo do esquecimento e da morte.
3:02 PMo olhar de um analista...saber que tem alguém que é pago só para me escutar, me emudece - sempre...certeza!
11:16 PMadorei!
beijo
A ACADEMIA MACHADENSE DE LETRAS (Machado-MG) comunica que estão abertas as inscrições para o VIII Concurso Plínio Motta de Poesias, do ano 2011.
12:20 PMInscrições até 21 de outubro de 2011. Entrem em contato para adquirir o Regulamento:
a/c Carlos Roberto machadocultural@gmail.com
===================================
ESTE CONCURSO ESTÁ ABERTO A TODOS!
O VALOR DE 2 REAIS CORRESPONDE À INSCRIÇÃO PODE SER COLOCADO DENTRO DO ENVELOPE CONTENDO AS 6 CÓPIAS DO POEMA.
ABRAÇOS
CARLOS
Ler Dostoievski não ajuda muito nestas horas, hehehe
3:05 AMNem sei porque citei isso, deve ser por que quando tomo minha bolinha pela manhã vou lendo "Os Irmãos Karamazov" no caminho para o trabalho. O ser humano tem essa necessidade explicita de “normalizar” tudo ou com uma cachaça ou uma “bolinha” azul. Talvez o mundo ainda não tenha acabado por esse motivo, não é mesmo?
Maravilha de texto. Vc é insuperável!
Tem horas que a gente realmente quer tomar um monte.E horas que precisa apenas falar. Normalmente eu tenho paciência pra ouvir e quem fala até acha que quem ouve não precisa falar. Fazia tempo que eu não vinha por aqui me deliciar com seus textos. Paz e poesia..
10:58 PMBelo texto. Se eu quiser tomar uma posso te procurar por aqui?! rsrsrs Um abração!
11:18 AMseja bem-vindo, bem-vinda.
será um prazer ler e responder seu comentário, no entanto, optei por não aceitar comentários anônimos, ofensivos ou que, de alguma maneira, possam constranger aqueles que gentilmente se dispõem a me visitar.
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grata,
mariza lourenço