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15/12/2011

de pios

O Canto do Passarinho

Martina era mulher séria e robusta. Não tolerava descaramentos e brincadeiras fora de hora. A bem da verdade, Martina não aturava nada que fosse bonito: nem canto de passarinho, nem nuvem passeando no céu.

Verdade seja dita, o céu de Martina era medonho e cinza.

Martina tinha o hábito de se sentar em um banco de praia para ler a Bíblia e se concentrava ferozmente na pregação dos castigos àqueles que, ao contrário dela, sequer sabiam rezar o Pai-Nosso.

Havia um moço muito folgazão, o Casemiro, cuja principal diversão era atormentar Martina. Quando a mulher passava em frente à sua casa, Casemiro berrava:

- Hei, dona Martina, é verdade que a senhora nunca viu passarinho verde? E roxo, a senhora viu?

- Cale a boca, seu descarado ateu!

- Ainda vou lhe mostrar, dona Martina, um passarinho diferente - E se acabava de tanto riso, o Casemiro.

Certo dia começou a correr boato de que Martina estaria gravemente enferma, presa ao leito, sem poder colocar os pés para fora de casa. Casemiro, que além de desavergonhado, também era abelhudo, resolveu conferir pessoalmente se, de fato, a mulher estava doente.

Casemiro bateu palmas, gritou e, sem resposta, entrou pelos fundos na casa de Martina. Encontrou-a estatelada sobre a cama, vestida com um camisolão florido. Os olhos estavam vidrados, os cabelos soltos e despenteados. A mulher tremia.

- Dona Martina, a senhora está...

- Quero ver, Casemiro!

- Ver o quê?

- Aquilo, Casemiro. Aquilo que você diz ser diferente.

- Ah, dona Martina, foi só brincadeira descarada de desocupado. Não ligue...

- Agora, Casemiro! Quero ver!

Assustado, o moço girou sobre os calcanhares, mas Martina, bem mais rápida, agarrou-o aos gritos:

- Anda! Abaixe essas calças!

- Não, dona Martina, a senhora enlouqueceu?

Cheia de febre, suando, a grandalhona atirou-se sobre Casemiro, arriando-lhe as calças. O moço bem que tentou se safar, mas a mulher tinha a força de um cavalo.

Martina fez o que quis ao Casemiro: saltou sobre seu corpo, atracou-se a ele, cavalgou-o, puxou-lhe os cabelos, estapeou-lhe a cara e sangrou-lhe a boca.

Finalmente satisfeita, rolou para o lado, deu um berro e quedou desmaiada. Casemiro, mais morto que vivo, cambaleou porta afora, todo estropiado.

No dia seguinte, Martina voltou às atividades diárias, emburrada e séria, como sempre. Ao passar, porém, em frente à casa de Casemiro, soltou um pequeno grunhido.

- Passarinho diferente. Pois sim!

mariza lourenço 

[imagem design pics / deddeda]

4 comentários:

Antonio Siqueira disse...

Martina resolveu a pendencia dela, rs. Coitado do Casemiro...Deve ter visto o brejo hahahahaha
Rindo muito aqui.

10:09 PM
Antonio Siqueira disse...

Essa peça do Egberto é de deixar sem palavras. ^^

10:10 PM
Benno disse...

Achei que ela ia finalmente ouvir o canto dos pássaros, mas ela só queria ouvir o canto do pássaro. A última observação que ela fez, entretanto, foi sábia, afinal o pássaro roxo não tinha nada de diferente.
Divertido, diferente, adorei.
Beijos

4:25 PM
Georgia Caroline disse...

Com alguns meses de atraso, descobri que você voltou. Bom poder te ler de novo! Beijos!

2:41 PM

seja bem-vindo, bem-vinda.

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