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23 de ago de 2012

considerações de uma passante ao acaso

de fora pra dentro:

na pracinha duas menininhas de mãos dadas namoravam as passarinhas arrulhavam os passarinhos lamentavam a má sorte.
inveja mata.

***

gatos cachorros vagabundos proliferam nas ruas dormem sob as marquises tomam banho de sol no centro do coreto e trepam entre as rodas dos carros estacionados.
eles são felizes. eu queria ser.

***

o ciclista mandou o motorista à merda o motorista fechou o ciclista no cruzamento entre a rua tal e a avenida principal o ciclista caiu o motorista descarregou seu 'tresoitão' a esmo ninguém morreu. de menos o alfredo que não tinha nada a ver com a história e estava entregando flores pruma dona de um prédio em frente.

***

passei na costureira e ela disse é pano demais pra criatura de menos mandei fazer um vestidinho com os retalhos. ser baixinha tem suas vantagens.

mariza lourenço

[imagem de wings of a messiah]
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20 de ago de 2012

abismo

cheguei à conclusão de que este espaço me faz bem e de que a escrita solitária me faz melhor ainda, porque embora não sobreviva dela, é dela que me alimento para dias como este, em que me sinto um peixe morrendo pelas guelras. e arrancar da asfixia algo que valha a pena é exercício árduo de respiração.

foi assim, o sonho, dia desses:

eu caminhava sozinha. à frente o caminho se bifurcava. esse ou aquele? ou o que ficou para trás? retornar sempre se assemelhou à batida insistente de uma tecla aleijada. de maneira que segui em frente, sem eleger caminhos, deixando-me levar por um fio de crença: adiante, talvez, a luz. segure mais essa, mariza, adiante o que há é precipício. segurei e foi na beira. as mãos doloridas. os pés dançando no ar. segure mais, mariza, o fosso é profundo. agora, a escolha é outra. acima ou abaixo? o voo, a falta de ar. o passado é uma teta estéril. o presente é este. a dádiva graciosa de poder soltar as mãos. e o futuro é um segredo que, talvez, eu não queira desvendar.


mariza lourenço

[imagem de ©moshitrip]
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3 de ago de 2012

o padre

às quartas-feiras me olhava com cara de quem comeu e não gostou e suspirando, indignado, me abria a porta do confessionário antecipando-me as penitências, todas elas bem maiores que os pecados que eu confessava ter. com olhos de desprezo me olhava, como se fosse eu uma pintura mal-acabada de Maria, a Madalena, que não tem cura e não se emenda, mariposa de noites sujas iluminada pela indecência das ruas. com voz de culpa me falava, sentindo-se por mim ofendido, "sujeita ousada", que desrespeitando-lhe o rebanho, fazia barulho com os saltos e sob a transparência do vestido convidava ao pecado. podia sentir-lhe a respiração pesada através da treliça que nos separava, recriminando-me a invasão da hora Sagrada, quando uma multidão de ovelhas carcomidas silenciosamente desfiava nas contas do Rosário suas preces e ladainhas. mesmo assim, continuava me abrindo a porta, às quartas, hora da Ave-Maria, e em todas as despedidas enojado dizia "va¡ e não peques mais!". a isso eu não respondia, só ria um riso escondido, que não era de pilhéria, era mais um sorriso frouxo de quem colheu o que plantou!

mariza lourenço

[imagem ©creativeDIYkei]


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31 de jul de 2012

tango

Ainda danço tango / Com teus ternos / Guardados no armário.
Ainda faço amor / No mesmo ritmo / Das lembranças / De tua lí­ngua.

Ele não voltou para pegar suas roupas e eu não joguei nada fora: nem as gravatas, nem a flor seca que ainda teima em espalhar um cheiro de despedida pelo quarto.

Deixei tudo lá para me servir de choro e castigo, para me fazer rastejar, sozinha, de culpa e desejo.

Ai, a ausência que nada preenche:

Nem os dedos, nem a vontade que surge quando não peço, nem esta pouca vergonha que me faz gemer seu nome enquanto me arrasto pelo chão.

Nem o tango que ouço enquanto umedeço.

Nem a saudade me revirando por dentro.

Nada preenche:

A fome.

...e a lembrança de suas mãos desenhando em meu corpo todos los pasos de amor.

mariza lourenço
[imagem ©penetre]
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28 de jul de 2012

voltando...

pois é, povo, voltei!

muita coisa aconteceu no primeiro semestre, muita coisa ainda há de acontecer no segundo semestre, mas ter optado em desativar meu proseando, no ar desde 2004, não me agrada nem um pouco, de maneira que resolvi reativá-lo.

estou participando de outro blogue, NÓSTRES, em companhia de dois amigos poetas, Alberto Bresciani e Vagner Muniz, vale a pena conferir.

resolvi também arquivar as postagens antigas, porque se é pra voltar, quero tudo novo de novo, sem me esquecer, naturalmente, dos bons momentos, das amizades que colhi ao longo desses anos na blogosfera e do quanto cresci e vi crescer a escritora e cronista.

ainda não pensei, preciso admitir, o que irei postar daqui por diante, embora saiba que este espaço continuará servindo para meus pios informais e diálogos internos. vejamos como fica, como eu fico, como fica, sobretudo, a minha mão. *;)

depois de tanto tempo ausente, não sei mais quem me lê, onde foram parar meus amigos blogueiros, mas vou buscá-los, ah se vou. assim como me busquei.

poeminha?

assim, a poesia
vento que levanta
a saia
: e brinca.

beijos enormes.

mariza
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30 de dez de 2011

que venha 2012!

o Natal passou, o ano já vai embora e, confesso, não vejo a hora de ver nascer 2012. este ano foi difícil demais em todos os sentidos. de rápidas mudanças e pouquíssimo tempo para digestão. mas devo dizer que, ao final de tudo, me surpeendi com a minha capacidade de engolir, com classe, uma lagoa inteira de sapos.

foi um ano custoso, mas também de acolhimento e de exercício da tolerância. a maior parte do ano convivi com problemas que não eram meus e não me arrependo. eu cresci. e se pude colaborar para diminuir um pouco o sofrimento alheio já me dou por absolutamente satisfeita.

2011 foi difícil sim, mas foi também um ano de descobertas a meu respeito e a respeito do que me cerca. do que é importante, do que não é tão importante e do que não significa absolutamente nada. e o que fazer com o que não tem tanta importância e com aquilo que não significa absolutamente nada? mandar pro lixo, claro. porque uma coisa é carregar entulho o ano inteiro por necessidade e outra, bem diferente, é arrastar o entulho pro ano seguinte sem necessidade alguma.

e esta foi uma das coisas que mais aprendi a meu respeito e do que me cerca. de que o apego excessivo, ao que quer que seja, faz mal, impede o crescimento e nos deixa a sensação de sermos figurinhas repetidas de álbuns infantis.

e quase no finalzinho deste ano redescobri o prazer de postar em meu blogue, de escrever tortamente minhas confissões, de cometer um ou outro texto metido a poema, de receber amigos tão queridos, e de tantos anos, em minha caixinha de comentários. e de conhecer outros e me encantar com a beleza da palavra, com a competência de quem sabe exatamente como derramar no papel seus versos e suas prosas.

então, neste ocaso de um ano difícil, minha mensagem será especialmente destinada àqueles que usam da palavra escrita em seus blogues para levarem a todos a arte que não morre, que transcende distâncias, que prescinde de explicações.

que o próximo ano nos renove, meus queridos escribas blogueiros, que nos traga aquilo que tem de melhor, que mantenha em fogo alto a chama da criatividade, que não deixe morrer a vontade de escrever.

a todos os amigos, de longe, de perto, daqui e acolá, mas que, dentro de mim, estarão sempre grudados, um Ano Novo repleto de paz, amor e saúde.

e que venha 2012! e que seja um ano feliz!

beijos, mais beijos e meu melhor carinho.


mariza lourenço

[imagem ©greentheory]
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