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25/01/2009

de letras e selos

(nomes que nunca esqueci: de 'a' a 'z')

alfabeto


a.

na véspera do ano novo de 1988: "quero amanhecer dentro de ti".

(em meus sonhos ele ainda amanhece)


b.

não se importava que outros me desejassem. acho, até, que gostava. acho, até, que se masturbava, convenientemente oculto pelo véu da hipocrisia.

(tolo... como se eu não soubesse)


c.

amarrava-me os tornozelos para, depois, entrar em meu corpo com a fúria dos que castigam.

não era perversão.

(era desespero)


(...)

(...)

(...)


z.

sento-me em seu colo (bem rente ao peito) e o primeiro beijo, doce e terno e quente, faz-me pensar que, talvez, a felicidade não seja regalo daqueles que já desceram à cova. não ouço sinos, mas a ternura cala os ecos de minha voz aflita.

o segundo beijo, ainda doce e terno e quente, provoca o vislumbre de uma réstia de esperança entre as frestas das minhas frágeis portas.

é no terceiro beijo, porém, que ele me pede lhe conte tudo: de todos.
e eu lhe conto (como poderia recusar pedido de natureza tão doce, tão terna, tão quente?) de todos

:quase tudo.


(the happiness isn´t an everlast gift, after all...)



mariza lourenço



de selos: aproveito o ensejo para agradecer à Marcia Morais, dona do 'Meus Pensamentos', o selo recebido. obrigada de coração, boneca, você é muito gentil.
o selo é este:

recomendo:

blogue para nada (do pedro)
olho de pelica (do aderlei ferreira)
sabe de uma coisa? (da flávia brito)
wordshop cafe (do lício fábio)

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18/01/2009

matando leões... *;)



Romério Rômulo, um poeta de respeito, dono de um blogue pra lá de excelente (que eu re-indico aqui), além de colaborador precioso da Germina - Revista de Literatura e Arte, perguntou o motivo de meus sumiços. e eu aproveito a pergunta desse amigo querido, para satisfazer a curiosidade de outros amigos que, tantas vezes, ficam sem entender as minhas 'desaparecenças'.

pois bem, há dois anos venho tentanto, sem sucesso, entrar em férias. e por férias leiam, por favor, viagem. infelizmente, por inúmeros motivos, não tenho conseguido botar o pé na estrada: uma hora é vestibular de filho, noutra hora é médico marcado de mãe, em horas alhures são trabalhos que não posso desprezar. e assim, adiando viagens e descanso, opto por uma 'desaparecidinha' básica para meditar um pouco, para expurgar a sensação incômoda da falta de mudanças.

para tristeza da minha família e daqueles que convivem comigo diariamente, esta relação nada amigável com a rotina me deixa mais séria e menos propensa à alegria. nada que seja, realmente, preocupante, mas de todo modo, menos alegre e inspirador.

de qualquer forma, para 2009:

1- meu site: tomei vergonha na cara. em 2009 meu site estará no ar. já comprei domínio, contratei host e vou colocar o bloco inteiro na net. dependo de um certo moço, artista, arquiteto e músico pra me ajudar na empreitada. márcio enrico, faça-me a gentileza.

2- outro blogue: de duas amigas, layla lauar e mariza lourenço. nada de literatura. uma é psicóloga, a outra advogada. o que irá sair desse 'imbróglio', realmente não sei... *;)

3- o proseando continua, claro, com o objetivo de apresentar meus textos (quando houver a inspiração) e difundir a boa literatura nesse grande e maravilhoso mundo virtual.


e pra não dizer que não falei de flores, deixo aqui:

a poesia maravilhosa de Romério Rômulo:

"meu cavalo selvagem, meu morcego

1.

meu cavalo selvagem, meu morcego
rebuscam o sertão atávico.
quando aquilante da noite,
revivo a árvore sem escrúpulos de mim.
os corpos nutrem espaços. vertem ossos
que quebram meu estado breve.
de emoção vou refazer meus gonzos.

2.

quisera o aço de quirera, a quirera de aço
que ruboriza a face:
um poema que nutra a vida de carne.
seja breve meu estro. seja ralo e breve,
como breves e ralas as palavras avançam
sobre o corpo do povo.
o ar é puro manejo. não há vento
que esconda meu grito.

(per augusto)"


e um texto de Letícia Palmeira (gente, Letícia é ótima, seus textos são um escândalo de lindos):


"café sem açúcar


Com amor e com afeto
Eu entro em sua cidade

E fiz o ritual de esconder de você minha fraqueza. Escondi tudo. Corpo e glórias e ave-marias. Tomei banho. Uma hora no banho e o calor aquece o corpo só. Cuido de cada parte porque sei que irá observar com seu olhar de verde rio e verá se estive ou não em trânsito. Você me conhece como mães não chegam a conhecer seus filhos. Não houve tempo. Mães vivem outras vidas. Eu não. E agora são as pernas. São curtas — não salto telhados ou pontes. Viajo você. Estou pensando enquanto a água não faz seus milagres. Quantos erros ele verá em minha voz hoje? Vírgulas. Devo evitar as vírgulas porque aquela imagem de olho de verde rio sabe de todos os segredos. Destoa em destaque a voz do Gullar. Faz crônica do sofrimento da Sylvia. Elabora e naquele silêncio que odeio, mas permaneço? Sim. Estou aqui. Não grito. Sou de novo o caramujo atrás da jardineira. Mas eu tenho medo de você. E me escorrego entre minhas mãos porque estou brilhando em óleo. Untada como a criança no batismo. E penso nas letras maiúsculas. Ele sabe de nomes próprios, nomes de entidades e órgãos governamentais — tudo em letra maiúscula. Você errou, senhorita. Corrija. Corrijo pronta em vãos que esperam a demarcação. Maiakovski não me ama. E ele tem uma estupidez de repetir e falar em voz alta ou ressaltar nomes de autores. Hemingway. Russos. Andrade Carlos Drummond de. E não responde. What do you feel? Traduza. Uma ordem seguida de uma conspiração. Você é o rasgo no papel. E saio do banho. Perfumada e imbecil. Ele está sentado. Um homem sentado — apoiando as mãos nos joelhos — um cena western no verde rio. E lembra de nossa combinação. Você tem suas gavetas e eu arrebento todas. Eu costumo fazer cartazes durante o dia, mas o que tanto me faz calar minha euforia quando olho essa imagem corrompida de comunista sem causa atual? Seu problema está na estilística. Veja a construção. Essa vírgula. Que faz uma vírgula nesse período? E me faz tropeçar em meu acerto porque me encolho e ele coleciona a minha indigestão. Fica. Espera. Olha pra mim. Na cidade o trânsito é de dia e eu sou de noite e ele é torto. E de novo vem me falar em contos. Aprenda. Estes são contos. Não aqueles. E leia este livro. Acredita que me deu um livro e me pediu pra ler a página 147? Eu li. O que vê? Sou a cínica de tecido e óleo e sândalo. Respondo na pontinha de minha agulha. Vejo letrinhas redondinhas e um beijo. Mas ele continua querendo a luta e a intriga, mas sempre venço. Porque sempre vence aquele que foge ao combate. Sou covarde e assumo. E um chocolate entre Nietzsche e a Difranco. E agora repousa os olhos na tela. Ele tem uma janela particular. Através dela se esconde, se agiganta, escreve, espanta. Um filho da mãe. E me visto e vamos sair. A cidade nos encontra e somos iguais. Peças únicas do xeque -mate. Fica assim porque preciso de espaço. Olha aquela igreja. Foi ali que a encontrei. E esse oblíquo não se refere a mim. Era uma das tantas tontas que se deixaram largar. Sou tonta também? Ninguém responde porque não procuro respostas. Beijo de novo ao chegarmos à beira do rio de verde escuro. Um monte de gente passando e estou tranquila. Estou sim. Sim. Ele agora não fala. Me olha como se fosse um professor ou poeta olhando a obra. Ergue as sobrancelhas e me olha. Agora eu falo. Malu Mulher, Cole Porter, o sol sempre brilha na TV, uma estranha em Nova Iorque e quem vai saber da minha gota d'água se não falo? Sou bagunçada e vou permanecer assim. E de novo o olhar. Mas dessa vez vem com voz e tudo de apagar cigarro e pra que isso? Eu gostei dessa camisa em você, mas não entendo dessas coisas não. E eu largo sorriso porque é assim que venço. Meu sorriso aberto e sua boca quase sorri. E a cidade nos envolve de novo. Estamos em casa. Um falatório a mais porque você sabe que não tenho outra pessoa e elas foram nada. Tudo bem. Foram boas. Imorais. Mas você é minha. Uma estátua que só eu posso estragar, deixar tombar e romper empiricamente. Acredita em espíritos? Eu acho mesmo que ele sofre de problemas mentais, mas é a lei da mais-valia. Não decido muito, mas quando me espreme a ânsia, acabo com ele. Após ouvir toda a história do legado da nova literatura, sem blusa, seios, boca e seio e o resto em todo lugar, o espelho não mentiu. Eu vi você sorrir. Eu estava de costas tantas vezes, mas criminosa, despi o corpo frente ao espelho e agora pode falar de minhas vírgulas, soletrar poesia concreta, falar de outras doses. Eu observo através do furo da agulha e sei de você. Morrendo em mim porque merece sofrer e sofre o olho de verde rio porque você sabe. Somos peças do mesmo xeque-mate."


e eu sigo por aqui, por aí, por ali, dispersa no mundo e atenta, sempre, para as coisas do coração.

beijos

mariza lourenço
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12/01/2009

delicadas relações


tenho por princípio não fazer postagens lastreadas em comentários e textos de blogueiros ou escritores amigos. no entanto, alguns temas, sobretudo aqueles que dizem respeito à minha condição feminina, me são tão íntimos que não resisto à tentação de abordá-los aqui.

desde que o mundo é mundo homens e mulheres se relacionam e, dentro de uma perspectiva de orientação heterossexual, não resta dúvida de que nascemos uns para os outros. o encaixe é perfeito. complementamo-nos em nossas diferenças. e isso já estaria de bom tamanho não fosse a crescente desigualdade que desembocou em subserviência, violência e injustiça.

nada mais natural, então, que a mulher, insatisfeita, se rebelasse contra a imposição de um modelo ou papel forjado sem o seu consentimento e que não expressava sua vontade real.

mulher nasceu para ser o quê? ser mãe? não, definitivamente. mulher nasceu para ser humana e a maternidade, dádiva que eu não contesto, é uma opção. maravilhosa, sem dúvida, mas sempre uma opção. meu corpo é meu corpo: eu resolvo. algo que, em minha opinião, desponta claro como água, simples como a mais simples das operações aritméticas.

mulher nasce para ser o quê, afinal? para ser feliz, para conhecer, para ter dúvidas, para ser curiosa, para buscar. tanto quanto o homem.

hoje, em 2009, vêmo-nos à frente de uma nova realidade: da mulher que ocupa espaços, que sustenta a família, e que, sim, também cabe no mundo como um ser inteiro. independente de qualquer entendimento preconceituoso, a mulher constrói, e muito bem, as pontes ou pilares que a sustentarão gerações afora. e isso é ótimo, porque não há como ser feliz em um mundo que não ofereça oportunidades iguais para todos.

lamento muitíssimo por aqueles cuja visão maniqueísta não lhes permite entender o empoderamento da mulher como um direito.

lamento demais por aqueles que, embora digam aceitar a mulher como uma igual e com direitos iguais, ainda creem que, dentro de casa, a mulher deve acolhe-los como seus machos provedores.

lamento igualmente que muitos ainda acreditem que a indumentária da mulher possa servir de convite ou justificativa para um crime de estupro.

também não consigo apreender, embora faça um esforço imenso, a idéia de que a independência da mulher seja responsável pelo aumento da infidelidade feminina, pelo naufrágio das relações, pela fragilização da figura masculina. ora, o mundo mudou, todos os dias novos conceitos se incorporam à nossa realidade. ignorá-los é perder oportunidades. naturalmente, a mulher independente se sente livre para caminhar com as próprias pernas e desenvolver seus potenciais sem a necessidade de pedir permissão. ela já não teme, não tanto quanto antes, buscar a felicidade, nem que para isso precise romper com antigos elos. a infidelidade sempre esteve presente em relações pontuadas pela insatisfação e falta de amor. se, para muitos homens, a infidelidade é instintiva, para as mulheres ela só acontece quando o amor já está em seus estertores e a felicidade deixa de ser uma realidade para se tornar um sonho.

de fato, desde que o mundo é mundo homens e mulheres se relacionam, e tudo seria muito bonito se as diferenças fossem respeitadas, se não fossem usadas para subtrair direitos, se não fossem manipuladas para fazer sofrer. seria tudo muito bonito se os direitos da mulher fossem aceitos de maneira integral e sincera, não como meras concessões que se fazem a crianças caprichosas.

meus amigos, eu sou mulher, sou mãe e sou feminista. e tenho muito orgulho disso.

abraços desta amiga louca pra sair em férias.

creio que na postagem anterior me expressei mal ao escrever que 'voltamos em março'. quem volta em março é o site das escritoras suicidas, do qual faço parte... *;)

mariza lourenço


recomendo

bicho-da-mata, eu. (da sra. urtigão)
la escena de la memoria (da aninha peluso)
o buraco da fechadura (do jornalista de amenidades)
o lugar que importa (do marcelo novaes)
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02/01/2009

a bem da verdade...

o que muda? nada... ou tudo. depende de disposição. de fazer uma nova leitura daquilo que sempre foi tão óbvio. projetar o futuro é tarefa hercúlea, todo mundo sabe, mas a falta de tentativa me parece mais cansativa do que esperar acontecer.


***


— olha lá a estrela
— onde?
— lá, filha, bem grande
— não vejo, mãe
— não é possível, quase toma o céu inteiro
— mãe, me mostra

minha mãe ergueu o braço direito e eu pude vê-la subindo, escalando a negritude, contrariando a minha racionalidade excessiva. ela estava lá, a estrela. um netuno maior que a minha falta de boa vontade em enxergar o belo.

à minha mãe dedico as primeiras horas do calendário deste ano. aos amigos que me fizeram melhor em 2008, também.

um 2009 cheio de alegrias a todos. continuemos juntos, porque vale a pena estar.

***

do forno


última edição de 2008
temas: ritos e/ou náusea

voltamos em março de 2009. até lá... *;)


mariza lourenço
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