fica, assim, combinado
que não nos importaremos mais, que o mundo continuará girando e nós, e nossos nós, rodaremos juntos, em lados opostos, apesar da saudade, das tempestades ocasionais, dos maremotos e da fala cansativa da moça do tempo.
que você, ao final do dia, se ocupará da cozinha, colocará uma mesa farta, acenderá velas e preparará seu leito com lençóis perfumados. e que eu, ao final do dia, me sentarei no sofá, comerei um enlatado qualquer e criarei calos nos dedos de tanto trocar o canal da tv.
fica combinado que você terá alguém, que eu, talvez, encontre alguém, que faremos sexo, nos sentiremos gloriosos e não nos importaremos, apesar da saudade.
fica combinado que muitas águas correrão sob a ponte, que talvez a correnteza nos arraste e que, um dia, talvez você me veja, eu te olhe, e o mundo acabe nesse instante.
fica combinado que sempre serei a mão e você a luva.
que você será o colo onde não caberá ninguém mais além de mim.
e que em meus vales mais profundos nenhum outro explorador haverá de chegar além de ti.
fica combinado que destruiremos a gramática, os tempos verbais e os templos da certeza. e que a poesia sempre nos servirá de pretexto.
fica combinado que seremos, assim, distantes.
fica combinado que, amanhã, talvez chova.
e, que, talvez, o céu se rompa.
e o sol, assim rasgado, resolva nos pintar inteiros.
fica combinado que, entre nós, tudo não passou de um amor perfeito.
mariza lourenço
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