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28/02/2009

da pilhagem consentida

Furto de Uso

Na mão esquerda tatuou o sol
Com a direita me furtou todos os cheiros
Ingênua, da pilhagem não fiz caso
Deixei-me conduzir feito cordeiro
Permiti que me enterrasse o cajado
Cúmplice no descuido foi alto o preço
Hoje, uivo de dor arrependida
Ajoelho-me, penitente, me consumo
E que me perdoe, o céu, tanta blasfêmia
Mas ainda ardo, desesperada, de desejo.

mariza lourenço


[imagem michael hitoshi]
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25/02/2009

de mulher: Nina Nowacki

"Terceira revelação
Rodolfo

As portas de nossa casa abriam-se diariamente às visitas de Rodolfo, amigo de Alberto Nowacki. Simpaticíssimo e de boas falas, não escondia a admiração que sentia pelas minhas pernas. E caso pudesse agregá-las ao seu vasto patrimônio, com certeza o faria. Sem barganha de valores.

Aos 16 anos incompletos minha felicidade resumia-se em subir, de dois em dois degraus, a escada da sala de visitas; somente para proporcionar àquele homem de 41 anos uma visão completa de seu objeto de desejo.

Ele me queria. Tanto quanto eu queria ser consumida.

Por qualquer um que já não cheirasse a leite. Por qualquer um que não tivesse o rosto coberto de espinhas.

Por qualquer um.

Rodolfo entrou em meu quarto às primeiras horas de um domingo chuvoso. Não estava frio, mas Rodolfo tremia. E, sorrindo, eu lhe perguntava onde se escondera o homem que me devorava com os olhos.

A imprudência da menina mostrou-se propícia ao lobo. O homem caiu sobre meu corpo e me comeu.

O homem, entre as minhas pernas, fez doer.

Rodolfo, entre as minhas pernas, fez o que quis.

E eu deixei.


Nina Nowacki "

(texto extraído do folhetim inédito A filha de Maria Nowacki)

*agradeço à minha amiga Nina a permissão para postá-lo.


[imagem george marks]
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24/02/2009

de rosas

novamente em tua boca
aberta entre as pernas
: a flor

e vai a vida, sem espinhos. entre as pernas fechadas uma flor respira aos solavancos. sobrevive, não se sabe como, entre escombros de lutas e lembranças mornas. e quem pode com a vida? e quem sabe dela? ninguém, nem o espinho que surge de inopino, ou o cheiro manso de orvalho que desponta em meio à aridez de mil e tantas noites sem amor.
quem sabe, afinal, da vida? ou das surpresas que se revelam instantes úmidos? quem sabe, talvez, a boca. tua. ou a tua mão. artífices perfeitos para acordar quem dorme. para molhar de gozo a rosa inculta, bela. e minha.
e vem a vida, assim, com todos os seus espinhos, seus cheiros, e uma saudade faminta de ti. da mão que abre as pernas. da boca que rega a flor.
a minha (e tua) rosa.

e que seja sempre assim, a vida. acordada e em desacordo com o tempo que não passa enquanto não vens.


mariza lourenço


[imagem angel herrero de frutos]
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17/02/2009

Alarme*

imagem siede preis



À noite todos os anjos voam pardos,
invisíveis aos meus olhos: descrentes?

Julgo-lhes — somente — julgo-lhes,
sorrindo do despreparo do meu espírito,

ao ouvir-lhes as vozes, coral de pífanos.
Mas quem, na ambigüidade dessa vida,

pode afirmar, segura e impunemente,
que amanhã, tão longe e incerto, ainda,

eu não acorde anjo, cantando hinos
ou somente asas, vicejando em dias frios?

mariza lourenço

* nota da autora: o poema Alarme, publicado originalmente na Plataforma para a Poesia, e revisitado na data de hoje, sofreu alterações, também nesta data.

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11/02/2009

11 de fevereiro: Viva você, Camilla!


AMOR DE MÃE

— Dá pra adiar?

— Por quê? está com medo de perder a sessão das dez? Tem tempo...

— Falta de graça!

Eu estava apavorada, com dor e com frio.

Eu queria sair correndo daquela sala pra nunca mais voltar: Eu não estava preparada!

Lembro-me que, ao completar 15 anos, mamãe enviou todas as minhas bonecas para um desses hospitais reparadores de brinquedos. As bonecas retornaram lindas, frajolas, novinhas em folha e fechadas dentro de caixas, que minha mãe guardou com muito cuidado.

— Uai, mãe!, a senhora vai guardar as bonecas?

— Vou. Para sua filha.

— E quem disse que vou ter filhos?

— Claro que vai... vai estudar, se formar, ser independente e ter filhos.

As palavras de mamãe, ditas de maneira tão incisiva, acomodaram-se dentro de mim como verdades absolutamente normais e inquestionáveis. Nunca mais ousei falar nada a respeito, porque, descontadas todas as diferenças que tínhamos e o fato de ter me engajado, anos mais tarde, em uma ferrenha luta feminista, mamãe estava e sempre estará certa.

E o destino se cumpriu, exatamente como vaticinou minha sábia mãe.

— Nasceu!

Como se eu não soubesse, Doutor!

O choro, os pezinhos, as mãos, a boquinha rosada, a cara enrugada... amor meu, maior que o mundo, carne minha, vida da minha vida aconchegada entre meus seios.

— E então? Ainda quer pegar a sessão das dez?

— Qual o filme?

Eu ria, chorava e rezava para que o mundo recebesse bem a minha bonequinha. Que a tratasse com carinho e respeito. Que a acolhesse quando eu já não mais pudesse abrir-lhe os braços. Que a abrigasse quando meu colo já não estivesse presente.

— Menina menina, você é pequenina, mas suporta bem, nos encontraremos em dois anos, até lá seu útero se recupera.

— Tá brincando comigo? É muita responsabilidade. Sente só meu coração, está aos saltos, completamente desvairado. Quero mais, não. Deixa eu cuidar bem da minha filhota única. Deixa eu cuidar da minha Camilla.

Voltei um ano e quatro meses depois, para mais uma vez (re)viver um caso de amor chamado: Felipe.


mariza lourenço, a mãe mais feliz do mundo.
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09/02/2009

e a poesia virou prosa: de um amor assim... tão grande



Cássia e Rita

Senhor, nada lhe posso contar além do passado que me atormenta e da lua que me faz lembrar.
Toda a gente fingia que nada sabia do amor proibido entre Cássia e Rita. Duas mulheres, quase meninas, que se descobriram em noite de festa, na dança de roda, pulando fogueira.
Que frio era aquele que Cássia sentia cada vez que tocava os braços de Rita?
Lugar não havia que pudesse acolher amor tão intenso, feito de flores, de frutos e laços.
E assim, escondidas, iam se amando, Cássia e Rita, evitando os olhares da gente, que, mais do que raiva, inveja lhes tinha.
Mas estava aquele amor fadado ao fracasso, quando em noite de lua resolveram se amar à beira de um lago.
Um certo Pedro Cruento, metido a valente, sabedor do destino das duas meninas, levou a todos por testemunhas, doido de amores que estava por Rita.
Que visão estupenda, Senhor, lhe afirmo, era aquela de corpos se amando em rasgos de paixão inocente!
Tão iguais, tão perfeitas em suas marmóreas figuras, que até hoje, não sei, meu Senhor, onde começavam os cabelos de Cássia e terminavam os cachos de Rita.
Mas nem a visão do amor enterneceu aquela gente que, armada de pedra, chibata e porrete, perseguiu as gazelas, arrancando-lhes peles, corações e dentes.
E esta é a história de um amor proibido:
Cássia e Rita, duas mulheres... quase meninas, que, ousando se amar, nunca mais foram vistas.
E é Pedro Cruento, o metido a valente, que todas as noites percorre as matas, fontes e lagos, chorando as dores das chagas expostas, pedindo que a lua lhe traga de volta os risos de Cássia, os olhares de Rita.
Ousa agora, Senhor, perguntar-me meu nome?
Pois lhe digo, Senhor: meu nome é desengano, é remorso, é desalento. É dor de uma vez tendo visto o amor, afogá-lo para sempre em meus sonhos, outrora tão belos, puros, singelos.
Ousa, ainda, perguntar-me meu nome? Se nome já não tenho? Se no poço sem fundo onde sepultei minha louca procura, já não me reconheço?
Ora, Senhor! Da vida nada mais espero, além do clarão do luar, perdido que estou entre as lembranças de duas meninas... quase mulheres:

Cássia e Rita.



mariza lourenço



***

a pedidos reativei o sistema de comentários e, aos poucos, reativarei o restante dos links e demais configurações. ainda não estou segura o suficiente para fazê-lo neste momento, infelizmente.

agradeço as mensagens de carinho e apoio.

***

caros amigos,

por motivo especialmente sério, fui obrigada a pausar este blogue por algum tempo. fiz contrariada e bastante triste, porque não era minha intenção me afastar daqui e do convívio dos amigos e conhecidos.

vocês certamente irão reparar que retirei de meu template todos os links, o acesso aos arquivos antigos e o sistema de comentários, mas foi necessário, creiam-me, sobretudo para preservar a minha segurança e a privacidade de todos que sempre estiveram por aqui. infelizmente, também por uma questão de segurança, fui obrigada a bloquear o acesso ao meu perfil e meus dados pessoais.

no entanto, saibam que seus links continuam guardadinhos em meu micro e tão logo tenha condições de retornar, tratarei de inclui-los novamente.

continuarei a postar, mas a título precário (sem possibilidade de comentários) até que tudo se resolva.

contando com a compreensão de todos, deixo, logo abaixo, meu e-mail pessoal, a fim de que possam se comunicar comigo caso queiram.

marizalourenco@uol.com.br

fiquem bem. tenham dias felizes.

até mais.

abraços


mariza lourenço
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07/02/2009

Remissão
(à Pilatos)

Era noite sem lua e do outro lado da rua, tão próximo de mim e, ainda assim, tão longe do meu destino, ele aguardava com um pedaço de culpa cravado na língua (que sabor ela tinha?) e um tanto de arrependimento entre as mãos. As mesmas que brincavam com a pinta — tatuada por Deus — na minha barriga.

Do outro lado da rua (e entre a gente um abismo) ele me olhava em silêncio, jogando-me nos ombros a responsabilidade pela própria redenção. Ele suplicava perdão quando todas as possibilidades haviam sido mortas sobre o mesmo asfalto que naquela hora, desafortunadamente, nos separava.

E pela primeira vez senti a sanha que se entranha num ventre magoado. Senti vontade de nunca mais ser guardiã da vida alheia. Senti desejo e enjôo, e a vontade de expelir o fruto que ele semeara quando ainda acreditávamos que seria para sempre. E não foi.

Do outro lado da rua ele esperava e, em mim, a dor era maior do que o céu que um dia nos abençoara. O mesmo céu que, naquele momento, nos negava proteção.

Dei-lhe as costas (confesso), subi as escadas (quando queria estar morta), tranquei-me no banheiro e vomitei toda a minha vida: antiga e nova.
Dei descarga.

Lavei as mãos.


***

caros amigos,

por motivo especialmente sério, sou obrigada a pausar este blogue por algum tempo. faço isso contrariada e bastante triste, porque não era minha intenção me afastar daqui e do convívio dos amigos e conhecidos.

vocês certamente irão reparar que retirei de meu template todos os links, o acesso aos arquivos antigos e o sistema de comentários, mas foi necessário, creiam-me, sobretudo para preservar a minha segurança e a privacidade de todos que sempre estiveram por aqui. infelizmente, também por uma questão de segurança, fui obrigada a bloquear o acesso ao meu perfil e meus dados pessoais.

no entanto, saibam que seus links continuam guardadinhos em meu micro e tão logo tenha condições de retornar, tratarei de inclui-los novamente.

continuarei a postar, mas a título precário (sem possibilidade de comentários) até que tudo se resolva.

contando com a compreensão de todos, deixo, logo abaixo, meu e-mail pessoal, a fim de que possam se comunicar comigo caso queiram.

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fiquem bem. tenham dias felizes.

até mais.

abraços

mariza lourenço
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05/02/2009

uma pausa necessária

ESTRELA DA MANHÃ

Eu quero a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã

Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda a parte

Digam que sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa? Eu quero a estrela da manhã

Três dias e três noites
Fui assassino e suicida
Ladrão, pulha, falsário

Virgem mal-sexuada
Atribuladora dos aflitos
Girafa de duas cabeças
Pecai por todos pecai com todos

Pecai com os malandros
Pecai com os sargentos
Pecai com os fuzileiros navais
Pecai de todas as maneiras

Com os gregos e com os troianos
Com o padre e com o sacristão
Com o leproso de Pouso Alto

Depois comigo

Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas
comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples
Que tu desfalecerás
Procurem por toda parte
Pura ou degradada até a última baixeza
eu quero a estrela da manhã

Manuel Bandeira

***
caros amigos,

por motivo especialmente sério, sou obrigada a pausar este blogue por algum tempo. faço isso contrariada e bastante triste, porque não era minha intenção me afastar daqui e do convívio dos amigos e conhecidos.

vocês certamente irão reparar que retirei de meu template todos os links, o acesso aos arquivos antigos e o sistema de comentários, mas foi necessário, creiam-me, sobretudo para preservar a minha segurança e a privacidade de todos que sempre estiveram por aqui. infelizmente, também por uma questão de segurança, fui obrigada a bloquear o acesso ao meu perfil e meus dados pessoais.

no entanto, saibam que seus links continuam guardadinhos em meu micro e tão logo tenha condições de retornar, tratarei de inclui-los novamente.

talvez, eu poste textos, mas o farei de modo precário (sem possibilidade de comentários) até que tudo se resolva.

contando com a compreensão de todos, deixo, logo abaixo, meu e-mail pessoal, a fim de que possam se comunicar comigo caso queiram.

marizalourenco@uol.com.br

fiquem bem. tenham dias felizes.

até mais.

abraços

mariza lourenço
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01/02/2009

do que não tem remédio... *;)

1- o que não tem remédio... *;)


...making love

partir-me em muitas
até nada restar
além deste silêncio
impregnado de gozo





estar só e sentir desejos.

estar só e deixar o corpo alimentar a si mesmo

(é sua função).

ainda que, inutilmente, a fome reclame outro corpo.

deixar...

(...)

materializar o sonho e deixá-lo traçar o caminho certo para o prazer

(é minha função).

fazer dos dedos, língua e membro, o encaixe perfeito

do sonho (dele) em mim...

(...)

talvez eu tenha nascido do jeito errado.

talvez a solidão cometa pecados.

não importa a definição que se dê
para este jeito plural de amar.

dentro de mim, há tempos, o pecado virou instituição.

(...)

estar só e sentir desejos.

estar só e (mesmo assim) saciar a fome

deste útero que remexo

com todos os dedos da mão

...e que um dia a terra há de comer.


mariza lourenço



2- presentes bacanas... *;)


recebi da Marcia Morais, do blogue Meus Pensamentos, o poema abaixo:

Mariza guerreira
Mariza prozeira
Mariza que luta Mariza guerreia
não se assuste com Mariza
ela é uma menina
no corpo da guerreira
seu blog tem vida
e a todos ensendeia
na guerra com leões
ou brincando com gatinhos
sentimos sempre
o seu carinho

Marcia querida, obrigada, uma vez mais, pela gentileza. você é um doce de pessoa. e agora que virei sua musa tô muito prosa... hehehe.



Prêmio Dardos.

pessoas queridas, recebi da Tania Beer (dona do Bicho-da-Mata) o Prêmio Dardos. não sei, realmente, se mereço, já que as minhas aparições net afora e neste blogue deixam muito a desejar. de qualquer maneira, agradeço muitíssimo à Tania a lembrança do meu nome e deste espaço. ao lado o Prêmio, e a seguir o que copiei do blogue da Tania:

“Com o Prémio Dardos se reconhece o valor que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que em suma demonstram a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre as suas letras, entre as suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à web.”

Quem recebe o Prémio Dardos e o aceita deve:

- Escolher 15 outros blogs a quem entregar o Prémio Dardos;
- Linkar o blog pelo qual recebeu;
- Exibir a distinta imagem.

pois é, mas eu decidi sair do rumo, sabe? e indicar absolutamente todos os amigos que me visitam e aos quais sou imensamente grata pela gentileza e carinho que me são dispensados em todas as minhas postagens. cada um, à sua maneira, contribui lindamente para que eu permaneça no ar. cada um contribui, e muito bem, para que a blogosfera seja um veículo de transformação. para melhor.

sintam-se todos devidamente premiados. porque merecem muito mais do que eu, creiam-me.
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