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26/03/2009

três pulos e uma queda


compassionate eye foundation/steven errico



conselho

1. acenda uma vela;
2. faça uma oração para o santo de sua preferência;
3. peça perdão: nunca se sabe o que nos aguarda do lado de lá;
4. treine sua pontaria. Mire no lugar certo. Qualquer descuido pode ser fatal.

Às gargalhadas, atirou o pequeno manual pela janela. Aproveitou o ensejo. Pulou.



cicuta feito licor

Olhava para o pequeno relógio de pulso a todo o momento. Nunca esperara tanto por uma hora combinada. Às 13:30, despejou garganta abaixo o líquido precioso. Às 20:30 o telefone tocou:

- Agora não posso atender. Deixe seu recado. Carpe Diem.

- Prezado cliente, até o momento nossos sistemas não acusaram o pagamento de sua conta telefônica. Evite o desligamento de sua linha, pagando suas contas em dia. Caso já tenha efetuado o pagamento, queira, por favor, desconsiderar esta mensagem, com nosso pedido de desculpas. A Telefônica agradece.



plataforma

Só havia um velho na plataforma vazia.

Velho, ela disse, aqui tinha um trem?
Acabou de sair. Vá embora, vá.
Espero pelo próximo, então.
Deixa de teima. Outro, só amanhã. Aqui você morre de frio.
Já estou morta, velho. Eu fico.

Ficou.

Na manhã do dia seguinte, o velho arrastou o corpo cansado para fora da estação. Nunca conseguira evitar certas tragédias.

Na noite do segundo dia só havia um velho na plataforma vazia.



decolagens

- Não mereço isso, caralho!

- É para o seu bem.

(À frase canalha, esqueceu-se de acrescentar e para o bem do mundo. Foda-se, eu escolho o meu bem meu mal minha vida minha morte. Ainda que o mundo se esvaia em merda.)

Não permitiram minha volta pra casa, transferiram-me da enfermaria pra esta cela minúscula, este lugar de doido. Quero ir pra casa. Quero um advogado. Quero papel e caneta. Caneta não dão. Pensam que vou me matar com uma esferográfica bic cristal? Não tentei a façanha, confesso.

A primeira vez eu tinha 12 e ela se chamava Telma. Telminha toda delicada e perfeita. Os peitos de Telminha pareciam dois limõezinhos galegos. Aos 12 eu tinha dois melões na frente e uma bunda enorme.
Estudávamos na mesma escola de línguas.
- Oui, oui, ma chérie. Telminha fazia bico. Telminha era muito charmosa. Ai, santíssima trindade, Telminha era bonita demais.
Criei coragem e pedi um beijo. Um beijinho só.
- Sua louca - Ela disse. E vomitou.

Atirei-me escadaria abaixo. Lá mesmo, na escola de línguas. Quebrei braço, clavícula, fiquei toda roxa, coberta de hematomas. Perdi Telminha. Deixei de falar francês. Comecei a cair. Uma, duas, dez vezes.

À noite é pior. Tenho medo do escuro, tenho medo de sonhar com minha mãe, tenho medo de tarado. Dizem que, por aqui, todos os enfermeiros são tarados.
Minha mãe é assustadora.
Pobre do meu pai, que passou a vida inteira calado ao lado dela. Morreu novo, de câncer. Ela não foi ao enterro por motivos absolutamente desconhecidos.
Pobre do meu pai, deixou filhos e esposa amantíssima inscritos numa lápide. Que nenhum de nós até hoje mandou limpar.

Falar nisso, o que mais incomoda as pessoas? Minha boca suja ou esta vontade eternamente insatisfeita de voar? Voar em todos os sentidos? Aposto na primeira opção.
Não entendo os critérios. Desejam-me viva, desde que convenientemente trancada. Babando o tempo inteiro.
Melhor viva e louca, que morta mal-afamada, é isso.
Mas eu me vingo.
Um dia hei de virar pó e esquecimento.
Tomara.

Meu irmão esteve aqui semana passada, creio. É, acho que foi. Não interessa, meu irmão esteve aqui! Meu irmão, seus argumentos simplistas e seus diagnósticos definitivos.

- Você não quer cair, minha irmã, nunca quis voar. Não é louca, nem doente. Achamos que todas essas tentativas são uma forma de chamar a atenção para seus problemas. Por isso a mantemos neste lugar, para que reflita. Concordo que temos sido relapsos em relação a você...

Achamos, mantemos, temos, queremos. Quem? A família, o psiquiatra, o padre, o bispo, o juiz, ou a porra do mundo inteiro?

- Oh yeah! - respondi. Meu irmão é um monte de merda envolta num terno bem cortado.

Danem-se. Estou bolada, entupida de remédios, mal consigo articular meia dúzia de palavras, sem deixar escorrer baba pelo canto da boca.
Infelizmente, nem sempre o que a cabeça pensa, a boca é capaz de falar.

Carcereiro, por favor, tá na hora da próxima bomba. Preciso dormir pra sempre.

Certa vez, na escola, perguntaram qual animal eu gostaria de ser. Um pássaro, respondi.
Só que em nenhum momento, desejei voar rumo ao infinito. Acredito na lei da gravidade e nesta vontade diária de me esborrachar no chão.
Pássaros me fascinam pela sua transitoriedade. À exceção do papagaio e da arara, todos morrem cedo.
O que eu queria ser é um pássaro sem asas.

Há dias, desde que voltei, não sinto nada. Tem um fantasma no canto do quarto. Não sei como veio parar aqui e não me desagrada sua companhia. Juntos, em estranho torpor, observamos os movimentos do mundo pela janela. À distância é melhor. O sol brilha, arde e lambe a pele da moça. Bonita demais. O moço é insosso.

Ainda penso em sexo. Em bucetas. E na Telminha.

Estou muito magra, quase tão transparente quanto ele. Formamos uma bela dupla, flutuando a meio caminho de qualquer lugar.

Por Deus, traga alguma coisa que me arrebente de vez. Estou morrendo.

É a primeira vez que o vejo sorrindo.

(O pássaro, afinal, perdeu suas asas dentro de mim.)


[contos publicados originalmente no site Escritoras Suicidas, por ocasião de seu lançamento, em outubro de 2005]


mariza lourenço
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23/03/2009

De cansaço e velhice...


imagem deniz tavmen



De cansaço e velhice...
(para uma dama)

Não imaginei que subiria novamente estas escadas e para fazer a mesma coisa: encontrar-me com ele.

A primeira vez, há tantos anos, é algo que não interessa saber, pois ninguém há de achar impressionante o encontro entre a moça e seu noivo. Que fiquem na lembrança as lembranças de pactos e alianças.

A nossa história o tempo vem contando todos os dias. E não pensem tratar-se de uma história bonita ou feia demais. Não me envergonho dela, porque a trago nos filhos que fiz, nestas pernas inchadas, nestas mãos débeis, neste rosto sulcado.

Neste corpo caquético. Quase morto. Feito o dele.

Hoje, depois do último degrau, todas as lágrimas me serão permitidas chorar.

Sobre o corpo dele. No mesmo lugar.

Porque hoje, para além desta escada, a nossa história se acaba.


***

Cordélia

Com dificuldade o velho abriu a janela do quarto e deixou que os cheiros de Cordélia se misturassem ao vento daquela tarde.

Fechou a janela e olhou, sem arrependimentos, para a fotografia da mulher.

Libertara-a afinal, ela e ao seu amor não correspondido. Ela e aos seus olhos mendigos. Seu último presente, seu último ato de carinho fora o melhor e mais verdadeiro. Sentira por ela, naqueles segundos de brisa, um tesão que parecia querer arrebentar-lhe as carnes senis.

Que fossem embora, ela, o vento e seus cheiros. Deixassem-no sozinho.

Ele e ao seu desejo tardio.

Tudo já havia sido feito.

E dito.


mariza lourenço
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21/03/2009

das horas...

imagem agri press


Vinte e Duas e Trinta


Às vinte e duas e trinta ele entra por aquela porta, pragueja contra a lentidão do trânsito — pra chegar é tanta demora!—, afrouxa a gravata e me olha.

Às vinte e duas e trinta ele não se ocupa da minha cara de sono, o telefone toca, o tempo congela, ele me puxa, me morde, se queixa — coisinha, quem era? —, eu finjo desgosto, nas pontas dos pés ofereço-lhe o pescoço — nem sei.

Às vinte e duas e trinta eu rebolo, sussurro e grito. E gemo indecências que minha vidinha (in)decente condena.

Às vinte e duas e trinta ele faz de mim o que bem lhe convém, diz que sou sua cadela e goza. E, por Deus, agradeço, nunca me senti tão amada e gostosa.

Às vinte e três eu acordo e acaricio entre as pernas a saudade que meu útero chora.

mariza Lourenço
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20/03/2009

impontuada...

imagem todd davidson


E o palhaço, o que é?


Ele é muito bacana sabe me enche de flor perfume camisola essas coisas e me leva também num restaurante lá na boca que eu nem sei o nome mas é lugar fino porque o garçom pergunta o tempo todo se a gente tá gostando da comida e é claro eu respondo que gosto mas não gosto é nada daqueles bichos dentro das cascas coisa mais nojenta que é aquilo vomito tudo no banheiro e depois desconto no vinho tinto e é aí que fico zonza converso alto e ele então me enche a cara de tapa diz que eu preciso aprender modos de mulher fina mãe é quem tem razão eu devia era dar graças a Deus de ter arrumado um homem bacana mas sabe como é dói sangra machuca só que depois ele fica tão arrependido mas tão arrependido que eu acabo pedindo desculpa de tanta pena que eu sinto coitado ele é muito bom não tem intenção de me bater é tudo culpa do nervoso de ver o nome no jornal com os jornalistas todos xingando ele de drogado corrupto assassino onde já se viu logo ele que todo ano coloca fantasia e dá brinquedo pra meninada lá do morro e é uma coisa linda de se ver todos os meninos gritando: OLHA O DEPUTADO! OLHA O DEPUTADO VESTIDO DE PALHAÇO! E o senhor acha que um homem feito ele que a criançada gosta tanto me bate de propósito? Eu é que sempre fui burra larguei cedo da escola e ele só quer me ensinar isso tudo é inveja desses políticos que inventam essas mentiras todas pra tirar ele de banda mas ele ganha e isto aqui nem é nada ele já pediu desculpa não quero dar queixa não ele é bom me enche de flor e um dia vai ser presidente e aí o senhor vai ver doutor o povo todo gritando de alegria: OLHA O PALHAÇO! OLHA O PALHAÇO VESTIDO DE PRESIDENTE!



mariza lourenço

[conto publicado originalmente na Germina - Revista de Literatura e Arte]
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17/03/2009

de mim e das minhas vocações hereditárias

[imagem asia image groups]


Diários

da chuva

ontem.

chove muito e eu não penso em fazer mais nada além de continuar sentada nesta cadeira, num canto escuro do quarto.
meu pai morreu, mas deixou sua cadeira. ele sabia das coisas.

esta cadeira é um ninho.

tenho medo de tempestades, mas a escuridão é velha companheira. gosto dela.

desde a barriga de minha mãe.

quando tenho medo, sinto raiva. uma raiva desordenada de tudo, sobretudo desta incompetência em lidar com meus pavores. quando fiz sete anos um bicho-papão enfiou-se debaixo da cama.

e nunca mais foi embora.

talvez esta seja uma boa hora para pensar nele e em sua ausência. embora o saiba presente do outro lado da porta. em maio é meu aniversário. o dele também. nosso inferno começa no mesmo dia.

e não tem data pra terminar.

chove ainda, mas é chuva mansa, de pouco barulho. o bicho-papão adormeceu sob a cama. do outro lado da porta, lá na sala, ele também dorme sobre o sofá.

como sempre.

de olhos abertos e sentada nesta cadeira, continuo acordada.
meu pai é que sabia das coisas.

esta cadeira é meu ninho.



das horas

I

bateram duas vezes à porta e minha disposição em abri-la é tão miúda quanto a certeza de que sobreviverei a mais um processo de desconstrução. não quero coadjuvantes. minha dor é egoísta. solitária. aguda.

e de dor eu entendo como ninguém.

II

sou mulher de prantos.
choro por tudo e nada. e o nada tem sido bem mais que tudo. choro manso pra despistar os demônios. choro baixo pra enganar meus fantasmas. ninguém desconfia de nada. e o mundo segue - presumivelmente - feliz.

sem mim.

III

sinto faltas essenciais: de algum amor, de alguma paixão, de algum sexo. e de tempestades. o que antes era profuso agora é reto. e esta linearidade me apavora. não estou preparada para viver em calma perpétua. quase morta.

ainda não.

IV

passei metade da vida levantando bandeiras e tentando compreender meus abismos. passei a vida inteira carpindo a dor alheia e perdendo meus sonhos em qualquer lugar.
logo eu, que nunca soube advogar em causa própria, apostei todas as fichas no mesmo jogo.

e perdi.

V

confesso que fui muitas sem ser nenhuma. confesso que me apaixonei demais e amei de menos. confesso que não me lembro de alguns cheiros. de algumas carícias. e do meu primeiro beijo.
se, hoje, vomito lembranças é pra justificar esta minha condição de puta.

de um homem só.

VI

entre meus dedos, o terço - presença física de minhas crenças - queima. ando esquecida dos mandamentos. e já não sei onde foi parar meu último pecado. aquele do qual nunca me arrependi.
a imagem da Virgem me enxerga, entende e consola.

ah!, Senhora, estou nua. tem piedade de mim.

VII

foi por minha conta e calculado risco que me meti em claustro (mais uma vez) e calei a boca (mais uma vez).
batem novamente à porta. (estou assustada). do lado de lá esperam pela mulher de sempre. pelo riso fácil. pela boca pródiga em contar histórias.
do lado de lá esperam por respostas que não tenho.

nem pra mim.



das vocações hereditárias

I

eu a vi sentada na mesma cadeira de sempre. parecia não dormir há anos. os nós dos dedos estavam brancos de tanto desfiar o terço. ela reza demais. ela chora demais. sempre foi assim. esse pranto de dor. essa reza pedinte. esse fardo maior que a vida. a dela e a minha, desde que nasci.

até quando, minha mãe, esse choro por mim?

II

tenho raiva dela. tenho inveja de sua fé, de seu conformismo, de sua abnegação. sua coragem desmascara a minha fraqueza. eu a culpo e ela disputa comigo uma dor que é só minha. a vida se tornou insuportável ao seu lado.

porque ela sempre soube o que eu nunca hei de saber.

III

ela não me avisou que seria assim, que eu seria assim, feito ela. que ela seria meu espelho. e que sua dor e a minha seriam irmãs. todas as lágrimas que verti têm o gosto dela. tudo é dela.

até esta vocação pra infelicidade.

IV

aquele homem disse: a filha não sobreviverá à mãe. ela acreditou e tem se esforçado em descumprir nosso destino. vez por outra eu a pego tentando desmanchar com os olhos as linhas das minhas mãos.
ela me ama.

e eu a amo tanto, como ninguém, em tempo algum, haverá de amar.


mariza lourenço

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16/03/2009

acerca de pés e teimosia

segundo minha mãe eu sou teimosa e desobediente. mamãe é um cadinho exagerada, mas sou obrigada a admitir que ela tem lá suas razões.

a crônica abaixo, antiga, é um exemplo de que teimosia não combina com bom senso. e se a publico neste momento é com o claro objetivo de lê-la incontáveis vezes durante o dia de hoje. eu mereço o castigo.

bem-feito pra mim *;)


MEDO DE MÉDICO

Após muita insistência da família, amigos, agregados, cachorro e papagaio, decidi ir ao médico, um angiologista indicado por uma amiga hipocondríaca e alarmista: "Mariza, não estou gostando desses sintomas, é circulação. Olha a trombose!".

Fiquei assustada, imaginando-me com os pés amputados, depois as pernas e, por fim, a morte.

Marquei consulta e no dia aprazado lá estava eu, nervosa, descabelada e cheia de olheiras, tentando ler algumas revistas enquanto, com um canto de olho, investigava a sala de espera na tentativa de encontrar alguém que, como eu, aparentasse aquela cara de doente terminal.

Para a minha agonia e do meu umbigo, que a essa altura estava inchado de tanta autocomiseração, deparei-me com o sorriso piedoso da recepcionista que, exibindo saúde e beleza invejáveis, me olhava com pena. Ai, minha Nossa Senhora da Saúde, pensei, meu caso deve ser mesmo grave. Desviei os olhos para meus pobres pés doloridos, calçados em sandálias baixas. E apesar da aparente normalidade, comecei, naquele momento, um ritual de despedida daqueles que, em passado não muito distante, haviam percorrido, em sapatilhas, alguns dos melhores palcos do país.

Até hoje não entendo o porquê dessa espera horrenda a qual nos submetem médicos e dentistas, mesmo estando vazios os consultórios. Só pode ser proposital, uma forma de tortura imposta a nós, leigos, dependentes dessas doces e salvadoras criaturas.

Pois já esperava há meia hora e sem mais o que fazer, dei pra encenar meu funeral. Eu, mortíssima em cima de uma mesa no melhor estilo Filadélfia: a casa lotada e todos assistindo em DVD aos meus melhores momentos. Lógico, no vídeo eu estava linda, com os cabelos ao vento e enfiada num vestidinho fashion de crepe, enquanto os amigos — todos homens, naturalmente — diziam: "Como era bonita" ou "Por que perdi essa mulher?"

— Você não vai morrer.

— Não?

— Não! Que idéia maluca. Você não tem problema de circulação, o que tem é uma bela tendinite em ambos os pés.

— Ah!...

Levantei-me de um pulo, completamente refeita dos pensamentos fúnebres que haviam me assaltado minutos antes. Um batom e um blush, daria tudo por um batom e um blush naquele instante.

— Calma. Algumas recomendações antes que saia por aí pulando. Nada de saltos altos e trate de fazer fisioterapia.

Desabei novamente. Desistir dos saltos? Nunca!

— Conforme-se com seu tamanho.

— Obrigada, Doutor, mas o que me falta em tamanho compro na sapataria da esquina.

Ergui o queixo e saí da clínica. Completamente desolada.

Chamem-me superficial, mas sapatos de saltos sempre fizeram parte da minha indumentária, do meu dia-a-dia. Vá lá, ilusão que seja de poder caminhar sem desaparecer num mundo cada vez mais habitado por bípedes gigantes.

Bem, os planos para a conquista daquele bonitão de 1,90 foram adiados até que esteja totalmente restabelecida e caso o bom senso recomende a eliminação de saltos altos definitivamente, um baixinho simpaticíssimo anda de olhos espichados.

Dos males, o menor.

mariza lourenço

[imagem john foxx]

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14/03/2009

em 14 de março






De lendas
(a rosa de outono e o poeta)


era uma vez a poesia fecundando a terra. e era outra vez a terra parindo a flor. rosa de outono e de sangue, amor-perfeito e exato para caber em um poema.
não escrito.

era uma vez o poeta. e era outra vez a busca. entre as letras descoloridas e todas as intenções.
ocultas.

era uma vez o caminho de sempre, sustentando os passos dele. claudicantes e incertos, tropeçando na espera.
dela.

e na boca do homem a rosa fez-se verbo, sangue.
e cio.

e em suas mãos os espinhos sangraram as rimas.
primeiras.

era uma vez o início de tudo.
era uma vez um poeta e o amor.
e ainda é a poesia inscrita

:em todas as pétalas da flor




a musa e o amor


a musa fala:

ele escrevia compulsivamente. certamente, o excesso desculpava a timidez. (e a ausência de voz). quando escrevia não me dirigia a palavra. e ele escrevia muito. o tempo todo.

tudo é seu, afirmava.

para mim... os pequenos e delicados contos. os poemas de rimas perfeitas. e as imagens de um amor que, até então, só se consumara no papel.

meu corpo era o mais bonito. minha pele a mais branca. meus olhos a verdade encarnada. em seus versos eu nascia todos os dias para protagonizar uma existência idílica.

eu era sua musa. e assim permaneci até o dia em que tentei trazê-lo para o meu mundo de imperfeições. até o dia em que tentei fazê-lo conhecer os deslizes da minha alma e os caminhos, nem sempre retos, das minhas vontades.

ele continua escrevendo compulsivamente e sua amada ainda renasce diariamente em uma história de amor-perfeito.

(e como sinto falta do amor que não vivi)



mariza lourenço


imagem nature expressions
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12/03/2009

Elas ainda...

MADALENA

Dia sim dia não, pedia a ela que o acompanhasse em seus passeios, mas a mulher preferia assistir novela.

Ele não! Gostava mesmo era de ouvir Zé Cruz ao violão. Lá, no beco da Lapa, durante horas, ou até que a novela acabasse e pudesse voltar para os braços dela. Sua mulher.

Dia desses, de muito calor, Madalena e suas pernas atravessaram o beco da Lapa numa insolência de calar a cantoria nos bares. Madalena não era bonita, mas tinha um jeito de fazer perder a cabeça. De qualquer um.

Sob a mesa as pernas de Madalena acariciaram as dele. Sob a mesa a mão de Madalena brincou com ele até molhá-lo inteiro. Sob a mesa ele bem quis se atracar com Madalena.

Mas Madalena era insolente demais.

Anteontem ele juntou suas coisas numa mala. Na sala, ela, sua mulher, assistia ao antepenúltimo capítulo da novela. Não trocaram palavra. Não choraram uma lágrima. Bem que ele quis voltar.

Mas
Madalena tinha um jeito de fazer perder a cabeça.

E ele perdeu, assim que a viu.


ESMERALDA

Ela tinha nome de pedra preciosa e ele a amava, não se sabe exatamente o motivo, talvez, por estar sempre ali, disposta e à disposição: à sua mão.

Quando a jóia desapareceu, ele pensou que, provavelmente, o cadeado de sua caixa de encerrar relíquias tivesse sido forjado com matéria ordinária, comum demais para aprisionar riquezas.

Grande e natural engano. Ninguém lhe havia furtado a jóia. Ela escapou porque quis, pela primeira fresta que se abre no vácuo do coração.


DAIANA

Daiana ajeitou os seios dentro do sutiã meia-taça. Olhou-se no espelho e resolveu retocar o batom. As mãos estavam trêmulas e sob os olhos castanhos, a maquiagem mal encobria as profundas marcas roxas. Cheirara a última carreira há dia e meio e, nesse momento, daria o céu e o purgatório por mais um “teco”.

A salvação da lavoura esperava do lado de fora do banheiro: um sujeito asqueroso, de mãos enormes.

Foram para a pista de danças e, entre os braços do sujeito, Daiana se contorcia de nojo e fraqueza. Ele a apertava e, ao ouvido, dizia-lhe coisas que fariam corar a mais devassa das criaturas. Não que Daiana não o fosse, mas aprendera a ser surda e cega por conveniência. O tal sujeito lhe metia medo. Pavor! Aquelas mãos horrendas não paravam de lhe apertar o corpo todo. Aquela língua não parava de vomitar um palavrório do cão em seu ouvido. Treze minutos de dança e a moça já pedia a todos os santos que a fulminassem ali mesmo.

— E aí, vamos aliviar ou não?

Daiana suspirou, desvencilhou-se do homem e deixou que ele a seguisse até o bar. O barman, único que ainda lhe reservava algumas palavras decentes, olhou-a preocupado quando ela pediu a chave de um dos quartos. Daiana levou os dedos aos lábios e estendeu-lhe a mão direita. Sem muito o que fazer, o homem deu à moça uma chave. Do quarto 13.

O sujeito estava impaciente, e assim que entraram no quarto, dirigiu-se a uma mesinha e, sobre um pequeno espelho, dispôs com cuidado as carreiras de pó. Daiana precipitou-se sobre a droga feito animal. Cheirou, cheirou e cheirou até que lhe faltasse o ar. Não reparou — nem podia — no homem que a observava sorrindo. Ele não havia cheirado, sabe-se Deus porquê. As razões, se é que existiam, não eram conhecidas por mais ninguém além daquele sujeito estranho.

Daiana se sentia leve e feliz, como se de repente, o mundo já não fosse este, mas aquele de quando era criança e brincava no quintal de sua vizinha. Podia até ouvir a criançada implicando com seus modos de menino. Lembrou do gato, da boneca e do arroz branquinho que dona Jurema fazia para alimentar a meninada.

A leveza era tanta que Daiana não se importou quando ele lhe pediu que tirasse as roupas. Despiu-se, peça por peça. Dançou uma dança confusa, misto de ciranda e xote. Estava tão feliz que se esquecera de rezar para que algum santo a fulminasse ali mesmo.

Nem mesmo quando aquelas enormes mãos envolveram e, por fim, quebraram seu pescoço, Daiana pensou em rezar.

mariza lourenço

[imagem andreas schlege]

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08/03/2009

Mulheres de qualquer tempo.

08 de Março: Viva Você, Mulher. De qualquer tempo. Todo dia!


8 de macho

nasci pra isso:
ou fico por cima,
ou não saio debaixo


dia da mulher

comer,
amor:
ação!

Adelaide do Julinho

***

a esfinge

Ofélia tem os cabelos tão pretos
como quando casou.
Teve nove filhos, sendo que
tirante um que é homossexual
e outro que mexe com drogas,
os outros vão levando no normal.
Só mudou o penteado e botou dentes.
Não perdeu a cintura, nem
aquele ar de ainda serei feliz,
inocente e malvada
na mesma medida que eu,
que insisto em entender
a vida de Ofélia e a minha.
Ainda hoje passou de calça comprida
a caminho da cidade.
Os manacás cheiravam
como se o mundo não fosse o que é.
Ora, direis. Ora digo eu. Ora, ora.
Não quero contar histórias,
porque história é excremento do tempo.
Queria dizer-lhes é que somos eternos,
eu, Ofélia e os manacás.

Adélia Prado

***

Beleza e verdade

Morri pela beleza, mas apenas estava
Acomodada em meu túmulo,
Alguém que morrera pela verdade,
Era depositado no carneiro próximo.

Perguntou-me baixinho o que me matara.
– A beleza, respondi.
– A mim, a verdade, – é a mesma coisa,
Somos irmãos.

E assim, como parentes que uma noite se encontram,
Conversamos de jazigo a jazigo
Até que o musgo alcançou os nossos lábios
E cobriu os nossos nomes.

Emily Dickinson
Tradução de Manuel Bandeira

***


Muito Prazer

Não me cobre lógica, não me peça coerência, nem venha me falar de razão – só a paixão me move. Não qualifique ou quantifique meus sentimentos e nem os compare a nada – deles só eu sei. Eu e os meus fantasmas, eu e os meus medos; sou pura emoção! Não sei falar sobre passarinhos quando grilos me ensurdecem e abutres voam salivantes sobre minha cabeça. Nem de flores, quando só espinhos me ferem. Não canto canções de amor, quando meus ouvidos só ouvem hinos de guerra. Meus olhos nunca vertem poças – vertem mar profundo, intenso, passional. Não me cobre datas, não me estipule prazos – sou atemporal. Não me imponha condições – sou incondicional. Às vezes, sou meu próprio furacão – me arrasto, me destruo, me devasto. Em outras, sou brisa, vento – me balanço, me embalo, me carrego. E noutras sou cimento, viga, tijolo – me ergo e reconstruo. Quando amo, sou música – me entôo, reverbero. Sou fogo – me queimo e me ardo; sou água – me afogo, me inundo. Sou meu problema, minha solução; meu veneno, meu antídoto. Sou luz, escuridão. Sou prisão e liberdade. Sou escrava, sou rainha, amazona e montaria. Meu querer não carece de explicação, não tem tempo, não tem hora – acontece quando e por quem tem que acontecer. Muitas me habitam – santas, profanas, crentes, piedosas, puras, pecadoras, corretas, erradas, imperfeitas, dominadoras, submissas. Anjos e demônios correm velozes à minha volta, sem multa. Mudo meu cenário, meu protagonista, meu enredo, meu roteiro. Posso amanhecer nublada, entardecer ensolarada, estar enluarada ao anoitecer e tempestiva de madrugada. Por muitos nomes já me chamaram, mas somente por um respondo.
Com prazer ou sem prazer...
Sou!

Layla Lauar

***

Uma história de pescadores

Quando Pedro saiu para pescar e não voltou, pensou que ia morrer. Passou dias inteiros andando na areia, olhando o mar, pedindo pra Iemanjá devolver seu homem. Ela lhe devolveu a jangada. E ficou com o seu amor. Dela, que era a mulher de Pedro.Uma dor tão imensa que mal lhe deixava respirar.

Mas, com cinco filhos pequenos em casa, não dava mesmo pra ficar parada, sofrendo. Tinha que ir à luta. Tratou de arrumar a jangada e partir para pescar também. Naquele fim de mundo, onde só tinha mesmo areia e mar, longe de tudo, só pescando ganharia o sustento dos filhos. Ou arranjando outro marido. Pra perder depois pra Iemanjá. Como sempre acontecia. Isso, ela não queria mais.

Assim, a jangada voltou ao mar com ela e mais duas, irmãs em tudo, inclusive nas dores da perda.

Ah, era feliz ali, no meio do mar, sem nada por perto. Ela, o vento, a vela, a rede, os peixes. E as outras duas. Iguais.

No início, todos os homens da aldeia desacreditavam delas. Onde já se viu mulher pescar de jangada, diziam. Mas logo se renderam às evidências. E passaram a respeitá-las. A ela, mais que todas.

Dia sim, dia não, saíam antes do sol raiar e voltavam à tardinha. As redes cheias. As mãos grossas. A pele crestada de sol. Um brilho especial nos olhos. Uma felicidade secreta no peito. E o cansaço.

Aos poucos, outras mulheres se aventuraram também. Em breve, revezavam-se no cuidado dos filhos. As que ficavam em terra cuidavam das crianças de quem estava no mar. No dia seguinte, estas iam pescar e as outras se encarregavam da meninada.

Uma coisa, entretanto, ela não revelava. Jamais contou a ninguém. Naquela noite, quando Pedro não voltou, prometeu que o mesmo não aconteceria aos seus filhos. Não seriam pescadores pra morrer bestamente, numa noite de vendaval. Isso ela garantia!

Fazia oito anos agora, que perdera Pedro. E que ganhara uma vida sua. Árdua. Dura. Mas sua. Que garantira os filhos na escola. A mais velha, professora, já. Os meninos estudando pra eletricista e mecânico. Os dois menores ainda na escola primária. Gostava de pensar que Pedro ficaria feliz se pudesse vê-los. E que ainda a amaria, escondido, no fundo do mar. Nessas horas, o peito doía de saudade.

Naquela manhã, tinham saído cedo. Dia de vento de agosto. Céu muito azul. Mar meio encrespado. Promessa de peixe. De repente, o tempo mudou. O azul escureceu. O vento virou vendaval. As ondas, altas e enormes. A praia tão distante que nem se via. As companheiras olhavam-se quase em pânico. Teria chegado o dia delas? Não, não se entregariam assim fácil. Não, ela. Tratou de fazer as outras trabalharem em vez de perder tempo chorando.

Foi então que, entre um relâmpago e outro, viu a jangada. Próxima. Flutuando leve. E sobre ela, Pedro. O seu Pedro. Um não-sei-o-quê percorreu-lhe o corpo dos pés à cabeça. Teve vontade de lançar-se ao mar. De mergulhar nos braços do homem que amava. Do seu homem. E que a amava. Tanto. Ainda. Tinha certeza disso, agora. Sempre o soubera.

Nesse instante, quando já quase caía ao mar, percebeu o ardil. A armadilha de Iemanjá. A poderosa e ciumenta Rainha das Águas. Não, não se deixaria levar pela visão do seu amor. Não se deixaria morrer entre as ondas. Era filha de Iansã. E a tempestade lhe daria a força necessária para voltar.

Teve a impressão de que Pedro lhe sorria quando retomou o controle da jangada. E que a tempestade amainava à sua passagem. Não olhou para trás. Não viu se desaparecera, a jangada. O seu homem. Viu apenas que o mar estava novamente calmo e o céu azul e estrelado, quando chegaram à praia. E soube que vencera.

Viveu muitos anos ainda. Saindo antes do sol e voltando com as estrelas. A rede cheia de peixes. Os filhos crescidos. Formados. Às vezes, saíam com ela para o mar. Que tinham jeito pra coisa, os danados.

Nesses dias, quase sempre avistava uma jangada flutuando perto. E via o orgulho nos olhos de Pedro. E ouvia a sua voz lhe dizendo de amor. Mas isso guardava com ela. Como um tesouro. E nunca contou a ninguém.

Márcia Maia

***

consiglio non richiesto

ovunque vai
per favore
bada
a te stesso
abbi cura

il mondo
è vasto
e basta
una toccata
e fuga

-no di Bach -

un po' troppo
forte
che inciampi
e ti trovi
a terra
impotente

almeno
strafottente

Myra Landau


***



Miscigenação

Um bisavô
tinha parte
com o vento.
Durou pouco,
não chegou
aos quarenta.
A bisavó
era de pés
tão fincados
na terra,
que viveu cem.
Um outro
juntou ouro,
fama, poder.
A outra,
por pouco,
quase põe
tudo a perder.
Uma avó,
resignada,
fez filhos
e rezas.
A outra,
decidida,
filhos e
revolução.
Um avô era
poeta.
O outro era
padeiro.
O que no fim
dá no mesmo:
tudo pão.

Silvana Guimarães

***

Dívida

fui criada à semelhança de eva. minha primeira mãe, minha primeira verdade. e o resto da minha vida de incertezas.

afinal, meu Senhor, de quantas costelas fui feita? de quanta bondade e desapego? de quanto amor?

e aquele presente, Senhor, que me deste e se acabou? por que me fizeste sentir o gosto do fruto, para logo em seguida enfiá-lo garganta abaixo daquele que eu mal conhecia?

hoje ele passeia por aí, exibindo minha culpa em seu pescoço. um pomo de carne e osso, desafiando o meu destino. tão pequeno e perigoso.

e agora a pergunta derradeira, aquela que me aperta a alma, e te faz, para sempre, devedor:

como, diabos, foi parar a serpente em minha história, meu Senhor?

mariza Lourenço


[imagens george marks]
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06/03/2009

ZUNÁI, REVISTA DE POESIA E DEBATES

Ano V, edição XVII, março de 2009


A poesia como exercício da perplexidade: entrevista com Maria Esther Maciel

Exposição virtual do artista plástico Guto Lacaz

26 aforismas sobre poesia, ensaio-manifesto de Rodrigo Garcia Lopes

A verdade do tempo reversível, ensaio de Raul Antelo

É possível uma tese sem teoria?, depoimento de Aurora Bernardini

John Cage — Augusto de Campos, um diálogo, ensaio de Daniel Lacerda

Abreu Paxe: calígrafo, ensaio de Francisco Soares

Cartas de Miami, por José Kozer

Alguna poesía reciente desde Argentina, antologia organizada por Reynaldo Jiménez

Traduções de Issa Kobayashi, Han Shan, Antonio Machado, Giuseppe Ungaretti, Dino Campana, Arturo Carrera, Elizabeth Bishop, Dylan Thomas

Poemas de Sérgio Medeiros, Álvaro Faleiros, Winner Chiu, Mônica Berger

Seis poetas do Peru: mostra poética organizada por Gladys Mendia

Marília
, conto de Giovanna Batini

Acordos, conto de Rogério Augusto



Zunái, revista de poesia e debates.
Onde encontrar: novo endereço,
www.revistazunai.com
Preço: inefável; inconcebível.

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04/03/2009

transfiguração

magnificat

comecei a sangrar aos dezoito dias de março de mil novecentos e oitenta e nove. dezessete e trinta e cinco. em dias que antecederam a ressurreição. quando Jesus, Maria e José vestiam-se de roxo e meu vestido era branco. alguma coisa emprestada. alguma coisa azul.

só sei que o sangue era lento e farto.

só sei que era dor e, depois, nada. e que retornou, sucessivas e incontáveis vezes. até eu não me importar.

quarenta dias e quarenta noites de jejum. e no deserto o pecado roeu meus ossos. e em minha cama a carne se desfez.

e um verbo entranhou-se às paredes de meu útero. e depois dele, o outro.

nunca mais pari.

só sei que durou dez anos.

e que meus olhos ainda vertem o sangue transformado em água.


mariza lourenço


[imagem b2m productions]
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03/03/2009

de meninos... ainda

Papo de Criança

— Tá olhando o quê?
— O céu.
— Por que?
— Quero ver se encontro ela.
— Vó diz que, agora, ela é estrela.
— Não é não. Ela é anjo e anjo mora em nuvem. Olha lá, não parece ela?
— Parece.
— Se a gente chamar será que ela vem?
— Não vem. Vó diz que ela vê a gente, mas não volta nunca mais.
— Mas vê a gente tão pequeno aqui embaixo?
— Isso vó não falou.
— Tô com uma dor estranha...
— Onde?
— Aqui dentro. Acho que é no coração.

mariza lourenço

texto publicado originalmente no site
Escritoras Suicidas, em outubro de 2006.

[imagem eastnine inc.]
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02/03/2009

para quem é criança. *:))

Conversa de Menino


O menino era tão bonito que dava pena ralhar por qualquer coisa.

Que fosse livre, então!

E era! Passava os dias empinando pipa, subindo em árvores e atentando os cachorros da vizinhança.

Tinha uma saúde de ferro, nunca precisara tomar remédio para baixar febre ou cortar infecção. Comia de tudo e não tinha desses enjoamentos de recusar brócolis e bife de fígado.

Um encanto de criança e, no entanto, em toda a sua pequena existência, jamais pronunciara uma única palavra. E não era doença, não. Reviraram o pobre menino de ponta-cabeça e nada de anormal foi constatado que justificasse a mudez.

Diziam que ele falava com os olhos, com as mãos, com o corpo inteiro. Quando sentia dor, fazia careta. Se a fome lhe vinha, apontava a barriga. Chorar não chorava, só quando pisava em caco de vidro ou prego enferrujado.

Os amiguinhos, com o tempo, aprenderam a identificar os gestos do companheiro e comunicavam-se com ele de um jeito muito particular, que só criança entende. Os adultos, ao contrário, irritavam-se com a teimosia e lhe davam uns petelecos.

Ele não ligava e continuava mudinho da silva.

As crianças das redondezas juravam de pés juntos que ele falava com os bichos lá na linguagem deles e que os animaizinhos o entendiam. Mas menino mente tanto que os adultos não se preocupavam com isso, mesmo que aos olhos de toda a cidade fosse visível a adoração dos animais por aquele menino bonito.

Na casa do garoto a situação não era lá muito boa. Os pais brigavam demais e diziam “coisas” que ele não compreendia. Só sabia que dentro de casa tudo era sempre muito escuro e triste. A mãe era triste, o pai era triste, a irmã era triste. Até o cachorro era triste. E ele... Ele era mudo.

Certo dia foi embora de casa sem se despedir de ninguém. Nem do cachorro. Foi para bem longe e nunca mais voltou.

O tempo passou, as crianças cresceram e deixaram de compreender a linguagem de criança e muitos casos foram inventados a respeito do sumiço do menino que não falava: Uns diziam que ele havia ido embora de carona com um anjo, outros, que tinha sido levado pelos ciganos.

O menino virou história bonita de se contar. Bonita e misteriosa. E ficou famoso! Na pracinha onde brincava com os bichos foi erguida uma estátua em sua homenagem. E mais casos foram inventados. Agora já corre boato de que ele anda fazendo milagres.

Quem ri disso tudo é Filó, a andorinha que todos os anos costuma passar o verão na cidadezinha. Sempre chega com notícias fresquinhas do menino:

— Ele virou doutor de bicho, como não?

— Doutor de bicho?

— É, inclusive deu um jeito naquela ferida que eu tinha no cocuruto.

— Ele volta?

— Diz ele que não.

— Ele agora fala? Deixou de ser mudo?

— Nunca foi, ora! É que ele só falava da boca pra dentro. E continua assim.

— Mudo?

— Não! Continua falando da boca pra dentro. Mas a gente que é passarinho, entende.

— Ah...

— Vamos dar uma volta?

As duas andorinhas bateram asas e foram passear pela cidade. Ela havia crescido, mas as histórias, as invencionices, as maldades e as brigas, como em todo canto, eram as mesmas.

Filó sentiu-se cansada e com desejo de ir embora. Antes, porém, avistou dois garotos brincando aos pés da estátua do menino bonito. Nada diziam.

A andorinha, então, aproximou-se e entre os três iniciou-se animada conversa.

E falaram bastante e riram demais, mas daquele jeito que somente passarinho e criança entende:

da boca para dentro e com todos os corações refletidos nos olhos.

mariza lourenço


[imagem cory docken]
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01/03/2009

Jogo do Bicho

Cinco anos é tempo demais!

Não carecia sentir tanto sua falta. Não precisava dessa lua encharcando a minha cama, nem da lembrança dos seus dedos todos tirando o meu sossego.

Cinco, cinco, cinco, cinco, cinco.

Número maldito que me atropela o pensamento, delinqüe meus sonhos e me arremessa de encontro à parede gelada do nada. O que eu faço com esse número? Assassino-me em cinco atos? Jogo no bicho ou compro cinco elefantes pra enfeitar nosso quarto?

Não carecia desse pedaço de céu ressuscitando meus dias, porque cinco anos, meu amor, é tempo que não acaba!

(...)

Estou menstruada. Cheia de cólicas e antes disso a tpm, a vontade, a tpm, o tesão, a tpm, sangue e desejo. Mais um filho que não tenho.

Em tempo: Não saiu o número cinco. Eu devia saber que com a gente não valeu a intenção. Sonhei a noite inteira com aquelazinha. Deu vaca na cabeça.

(...)

Hoje o médico esteve aqui. Achou-me fraca. Disse que o problema é a casa, que todo este cheiro de saudade me mata. Receitou mudança de ares. Qual! Receita de médico e advogado é tudo igual! Daqui só saio morta e, mesmo assim, sob protesto, levando comigo o vaso chinês falsificado. Jamais hei de entender porque me deu aquilo.

(...)

A Nona de Beethoven. Você costumava dizer que, juntos, parecíamos a Nona de Beethoven. Mal me deixava terminar a peça. Ficava excitado com meus dedos percorrendo as teclas do piano, mas, meu bem, quando me levava pra cama era ao som de Harrison que me comia.

Engraçado... somente com você fiz amor.

(...)

Já fechei as malas. Pouca coisa que não sou de carregar bagagem inútil, o vaso chinês segue junto e todo este cheiro de saudade também. Deixei as contas acertadas, a única coisa que me preocupa é o epitáfio. O seu foi fácil, mas o meu não tem quem faça, não como você faria se estivesse vivo. Tudo bem, penso nisso no caminho.

Me espera? Agora é pouco tempo... um minuto ou dois...

mariza lourenço


[imagem john foxx]
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