três pulos e uma queda
1. acenda uma vela;
2. faça uma oração para o santo de sua preferência;
3. peça perdão: nunca se sabe o que nos aguarda do lado de lá;
4. treine sua pontaria. Mire no lugar certo. Qualquer descuido pode ser fatal.
Às gargalhadas, atirou o pequeno manual pela janela. Aproveitou o ensejo. Pulou.
cicuta feito licor
Olhava para o pequeno relógio de pulso a todo o momento. Nunca esperara tanto por uma hora combinada. Às 13:30, despejou garganta abaixo o líquido precioso. Às 20:30 o telefone tocou:
- Agora não posso atender. Deixe seu recado. Carpe Diem.
- Prezado cliente, até o momento nossos sistemas não acusaram o pagamento de sua conta telefônica. Evite o desligamento de sua linha, pagando suas contas em dia. Caso já tenha efetuado o pagamento, queira, por favor, desconsiderar esta mensagem, com nosso pedido de desculpas. A Telefônica agradece.
plataforma
Só havia um velho na plataforma vazia.
Velho, ela disse, aqui tinha um trem?
Acabou de sair. Vá embora, vá.
Espero pelo próximo, então.
Deixa de teima. Outro, só amanhã. Aqui você morre de frio.
Já estou morta, velho. Eu fico.
Ficou.
Na manhã do dia seguinte, o velho arrastou o corpo cansado para fora da estação. Nunca conseguira evitar certas tragédias.
Na noite do segundo dia só havia um velho na plataforma vazia.
decolagens
- Não mereço isso, caralho!
- É para o seu bem.
(À frase canalha, esqueceu-se de acrescentar e para o bem do mundo. Foda-se, eu escolho o meu bem meu mal minha vida minha morte. Ainda que o mundo se esvaia em merda.)
Não permitiram minha volta pra casa, transferiram-me da enfermaria pra esta cela minúscula, este lugar de doido. Quero ir pra casa. Quero um advogado. Quero papel e caneta. Caneta não dão. Pensam que vou me matar com uma esferográfica bic cristal? Não tentei a façanha, confesso.
A primeira vez eu tinha 12 e ela se chamava Telma. Telminha toda delicada e perfeita. Os peitos de Telminha pareciam dois limõezinhos galegos. Aos 12 eu tinha dois melões na frente e uma bunda enorme.
Estudávamos na mesma escola de línguas.
- Oui, oui, ma chérie. Telminha fazia bico. Telminha era muito charmosa. Ai, santíssima trindade, Telminha era bonita demais.
Criei coragem e pedi um beijo. Um beijinho só.
- Sua louca - Ela disse. E vomitou.
Atirei-me escadaria abaixo. Lá mesmo, na escola de línguas. Quebrei braço, clavícula, fiquei toda roxa, coberta de hematomas. Perdi Telminha. Deixei de falar francês. Comecei a cair. Uma, duas, dez vezes.
À noite é pior. Tenho medo do escuro, tenho medo de sonhar com minha mãe, tenho medo de tarado. Dizem que, por aqui, todos os enfermeiros são tarados.
Minha mãe é assustadora.
Pobre do meu pai, que passou a vida inteira calado ao lado dela. Morreu novo, de câncer. Ela não foi ao enterro por motivos absolutamente desconhecidos.
Pobre do meu pai, deixou filhos e esposa amantíssima inscritos numa lápide. Que nenhum de nós até hoje mandou limpar.
Falar nisso, o que mais incomoda as pessoas? Minha boca suja ou esta vontade eternamente insatisfeita de voar? Voar em todos os sentidos? Aposto na primeira opção.
Não entendo os critérios. Desejam-me viva, desde que convenientemente trancada. Babando o tempo inteiro.
Melhor viva e louca, que morta mal-afamada, é isso.
Mas eu me vingo.
Um dia hei de virar pó e esquecimento.
Tomara.
Meu irmão esteve aqui semana passada, creio. É, acho que foi. Não interessa, meu irmão esteve aqui! Meu irmão, seus argumentos simplistas e seus diagnósticos definitivos.
- Você não quer cair, minha irmã, nunca quis voar. Não é louca, nem doente. Achamos que todas essas tentativas são uma forma de chamar a atenção para seus problemas. Por isso a mantemos neste lugar, para que reflita. Concordo que temos sido relapsos em relação a você...
Achamos, mantemos, temos, queremos. Quem? A família, o psiquiatra, o padre, o bispo, o juiz, ou a porra do mundo inteiro?
- Oh yeah! - respondi. Meu irmão é um monte de merda envolta num terno bem cortado.
Danem-se. Estou bolada, entupida de remédios, mal consigo articular meia dúzia de palavras, sem deixar escorrer baba pelo canto da boca.
Infelizmente, nem sempre o que a cabeça pensa, a boca é capaz de falar.
Carcereiro, por favor, tá na hora da próxima bomba. Preciso dormir pra sempre.
Certa vez, na escola, perguntaram qual animal eu gostaria de ser. Um pássaro, respondi.
Só que em nenhum momento, desejei voar rumo ao infinito. Acredito na lei da gravidade e nesta vontade diária de me esborrachar no chão.
Pássaros me fascinam pela sua transitoriedade. À exceção do papagaio e da arara, todos morrem cedo.
O que eu queria ser é um pássaro sem asas.
Há dias, desde que voltei, não sinto nada. Tem um fantasma no canto do quarto. Não sei como veio parar aqui e não me desagrada sua companhia. Juntos, em estranho torpor, observamos os movimentos do mundo pela janela. À distância é melhor. O sol brilha, arde e lambe a pele da moça. Bonita demais. O moço é insosso.
Ainda penso em sexo. Em bucetas. E na Telminha.
Estou muito magra, quase tão transparente quanto ele. Formamos uma bela dupla, flutuando a meio caminho de qualquer lugar.
Por Deus, traga alguma coisa que me arrebente de vez. Estou morrendo.
É a primeira vez que o vejo sorrindo.
(O pássaro, afinal, perdeu suas asas dentro de mim.)
[contos publicados originalmente no site Escritoras Suicidas, por ocasião de seu lançamento, em outubro de 2005]
mariza lourenço






















