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28/04/2009

para S com amor

de um tempo em que voávamos dentro da mesma gaiola. de um tempo em que aprendíamos a formatar e-mails com letras, backgrounds, imagens e midis diferentes. o tempo das primeiras páginas. dos passarinhos ondulantes em flash.

de um tempo muito bom é o texto abaixo, à época e sempre dedicado a minha querida S.


porque hoje é o dia dela.


(a música de fundo também é homenagem, pena que não encontrei uma midi... hehehe)



muitos beijos e o amor da amiga


marizoca


JURO
(quase verdade pura)

Juro dessa vez eu não volto nem que se faça mandinga os anjos reclamem o mundo se acabe você vire pedra te juro não volto fique com o desamor começado no inverno o gato as chaves do inferno os vinis importados os quadros as tralhas "as mesmas toadas de natais e de férias" as contas-poupança o arremedo de sexo a última piada a sem-vergonhice do nada juro não volto eu vou é me desvestir deste ranço e sair por aí à procura da moça que se sentia feliz fazendo amor no banco traseiro de um carro que gostava da boca que lhe mordia a nuca enquanto brincava de conversar com os olhos e só por isso eu vou e ainda carrego comigo a lembrança de um punhado de ausência já que nem retrato eu quero e nada mais me arrepia nem aquele contrato que um dia assinamos entre promessas felizes de que o amor que era tanto se um dia acabasse não fosse feito vidro que deixasse ao menos a dor tinta de negra saudade...

mariza lourenço
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24/04/2009

porque notícia boa a gente compartilha... *;)



Guia de Poesia: SobreSites


caros amigos,

no final de 2008 fui convidada pelo editor do
Guia de Poesia - SobreSites, o jornalista, poeta e escritor Luiz Alberto Machado, para uma entrevista. eis que, hoje, recebo a boa notícia de que a entrevista foi publicada. estou mais feliz que pinto no lixo... hehehe... me achando o máximo.

a entrevista pode ser lida
aqui

aproveito esta postagem extraordinária para agradecer especialmente ao Luiz Alberto Machado, grande amigo e incentivador, mais essa oportunidade, entre tantas, que me tem concedido.

também aproveito o ensejo para agradecer aos amigos deste blogue a gentileza dos comentários. infelizmente, por motivo de trabalho, não pude retribuir os comentários assim que os recebi, mas neste fim de semana, com calma, colocarei em dia minhas visitas.

boa sexta a todos!

mariza lourenço
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22/04/2009

de passagem... *;)

de passagem para saudar o fim desse feriado que, convenhamos, foi esquisito. *;)


POEMA ORDINÁRIO


Os dias são suportáveis

mas as noites,

meu senhor,

é que são elas:

sozinha nesta cama

coração se faz de morto

o corpo gela.


E qualquer coisa

além desta infeliz constatação

se não dá letra de samba,

meu senhor,

que dirá um poema.


mariza lourenço

nota da autora: o poema é ordinário, mas as duas músicas adicionadas ao meu player certamente compensam a pobreza dos versos. *;)
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18/04/2009

de uma vida inteira

[imagem steve debenport]


O Trem

Eu esperava que ele chegasse apitando na curva da estrada. Pra me matar de tanto susto. Eu, que nem sabia o significado das palavras, já sentia que aquilo era desejo de namorar. Minha boca era virgem, meu corpo inteiro era virgem e meus ouvidos nunca tinham escutado aquelas coisinhas que todo mundo diz quando fica apaixonado. Mas o frio na barriga eu sentia, o vai e vem no baixo-ventre eu sentia. A vermelhidão no rosto e nos seios e nas mãos eu sentia. Só não sabia explicar.

E então ele chegou apitando na curva da estrada. E depois dele, outro. E mais outro. E tantos, por tanto tempo. Tantos sustos e mortes. Tanta alegria e espanto. Tanto desassossego. E meu corpo já não era virgem. E meus ouvidos já haviam se acomodado às palavras e coisinhas que todo mundo diz quando está apaixonado.

Hoje ele ainda chega feito o primeiro, mas não apita, nem me mata de tanto susto. Ele vem do jeito dele. A curva da estrada virou meu canto escondido. Os meus ouvidos se transformaram em olhos para enxergar além do barulho e das evidências. Além das montanhas, onde tantas vezes eu subi. Além do mar, onde tantas vezes me afoguei. E o desassossego de menina virou calor de mulher madura. E o vai e vem no ventre, vontade de quem já pariu e recebeu tantos amores.

Um dia ele deixará de vir e eu, de esperar, de ouvir e reconhecer na curva da estrada um movimento diferente. E então serei só calma. E minha alma será somente voo. E o céu já não estará tão longe e as montanhas não serão nada além de uma lembrança encantada. E em meu ventre livre o destino já estará selado.

E cumprido.

mariza lourenço



notas da autora:
1. esse é daqueles textos que eu escrevo, reviso, reescrevo, reviso e nunca me dou por satisfeita. sempre há uma mudança, sempre há uma palavra sobrando, sempre há uma vírgula fora do lugar. quem sabe, um dia, eu consiga terminá-lo de vez.
2. eu me perco por uma boa música e não abro mão de ouvi-la enquanto leio, enquanto posto, enquanto escrevo. quando atualizo meu blogue, também atualizo meu player com a música que, naquele momento, traduza em parte o que sinto. a música escolhida de hoje, do Supertramp, é uma homenagem ao meu passado. ele bem que merece... *;)

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15/04/2009

de cinzas

A QUARTA-FEIRA

Chegou em casa com quatro dias de atraso.

Ela estava na cozinha, abrindo o forno, e nem se virou quando ele desabou de cansaço sobre a cadeira de fórmica.

– Verinha, que estranho, tem um táxi parado...

– Vá lavar as mãos. A lasagna ficou pronta.

– Verita, eu...

– Tá sem fome? Então aproveite pra tomar um banho completo. Seu perfume está empesteando a casa.

– Vera...

– Vou deixar a lasagna no forno. Depois de comer não se esqueça de colocar na geladeira, senão azeda.

– Não vai me ouvir?

Ainda sem se virar para olhá-lo, Vera Lúcia colocou os óculos escuros, um pequeno chapéu de sol e pegou as duas malas que estavam ao lado do armário.

– Tem razão, carro parado na porta de casa é sempre estranho...

– Onde você pensa que vai?

– Não se esqueça de colocar a comida na geladeira. E tome um banho! Que fedor, credo!

Vera Lúcia fechou a porta atrás de si, ganhou a calçada e entrou no táxi. Tirou os óculos que, até aquele momento, haviam cumprido fielmente o papel de ocultar dois olhos vermelhos de choro.

– Pra onde, dona?

O táxi partiu aos solavancos, deixou a pequena vila e, em pouco tempo, misturou-se ao tráfego intenso da Avenida Brasil.

A rua, sempre tão calma, escaldava sob o calor da quarta-feira de cinzas.

Dentro da casa, construida há tantos anos, um pirata chorava feito menino:

caido no chão

***

FIM
(pra nunca mais falar disso)

No começo era doce, como delicada sobremesa que se saboreia com gosto e desliza garganta abaixo, aveludada e macia.

Mas a receita desandou sob as mãos pesadas de tanto mexer panelas. E os ouvidos, como os de um mercador, acostumaram-se à cantilena irritante de vincos tortos e colarinhos amassados.

Os olhos ficaram baços e os lábios perderam o brilho, esquecendo-se do primeiro beijo e dos agarramentos ao pé da escada.

E o que era doce acabou-se em travo, de fruto verde e amargo.

A casa, outrora alegre, abria-se agora aos conselhos de qualquer tia que, a pretexto de visita, só sabia contar do casamento desfeito de uma prima e de como, na família, mulher largada tornava-se propriedade coletiva.

E o que era doce acabou-se em medo.

Todas as vontades de recomeços se perderam nos vãos ordinários das madrugadas e o que restou foi lembrança pequena e morta, sepultada de qualquer jeito sob a lápide muda de um colchão de molas.

E o que era doce acabou-se em nada.


mariza lourenço


nota da autora: prometo solenemente que, se houver próxima postagem, não escreverei sobre desenlaces matrimoniais. por ora, dou por encerrado o assunto... hehe.

[imagem george marks]
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08/04/2009

pequena crueldade

imagem headhunters



DOCE VINGANÇA

Mãe costumava dizer que eu tinha fogo demais para esperar tanto tempo, de modo que acabei me casando com Alfredo Luiz, meu primeiro namorado.

Eu juro por Deus e espero que um raio me parta ao meio se, em algum momento, desviei meus pensamentos para outro homem. Jamais pensei em viver outra vida que não fosse esta, ao lado dele, de Alfredo Luiz.

Nunca tive boca para mais nada a não ser acolher o gozo que ele fazia jorrar, satisfeito da vida. Prazer que só se igualava ao gosto de servi-lo.

Tudo o que sei aprendi aqui, neste quarto minúsculo. De joelhos e à espera que ele se enfiasse inteiro em qualquer parte de mim.

Alfredo Luiz foi embora numa quarta-feira. Dia estranho para se abandonar alguém.

Sentei-me na cama e olhei-o arrumar as malas. Não chorei e não pedi que me explicasse os motivos. Recebi seu beijo de despedida e um afago na mão direita.

Minha mão direita, aquela que, doravante, acompanharia minhas viagens noturnas aos porões da saudade.

Não havia se passado um ano antes que ele retornasse arrependido. Abri-lhe a porta e deixei que ele desabasse em meu colo. Abri-lhe as pernas para servir de remédio às suas feridas. E eram tantas. E era tão grande a sua dor. E tão pequena a minha alegria.

Alfredo Luiz foi grato. Nunca antes o vira daquela maneira, tão meu. Ele jurou que, no mundo inteiro, não havia mulher que se comparasse a mim. Ele jurou que seria o melhor dos homens. Ele prometeu me amar para o resto de seus dias.

E me respeitar e honrar os votos que, tão levianamente, descumprira.

Alfredo Luiz estava de joelhos. E a mim não coube outra coisa senão acariciar-lhe os cabelos, condescendente e piedosa, como o faria a um cão.

Não havia se passado um ano antes que ele retornasse engatinhando. Tempo suficiente, porém, para que eu já tivesse me acostumado à sua ausência, ao seu desrespeito, à sua falta de amor. Tempo suficiente para que meus dedos me concedessem todos os gozos que ele havia furtado.

Não se passou um ano desde que o recebi de volta. Desde que curei suas feridas.

Alfredo Luiz mantém sua promessa e seus votos. E eu mantenho os meus, satisfeita da vida, desde que o recebi de volta e, por conta própria, resolvi matar-lhe a alma.

[conto publicado originalmente na Revista Vagalume]


mariza lourenco
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04/04/2009

pequenas histórias

(sem glamour. e quem precisa dele, afinal?)

Maria Rita

Eu não sinto muito!

Eu não sinto nada! As pernas, os olhos, a boca. Nada! Desde a última visita de Maria Rita. Tão estranha. Tão linda.

Há mais de ano meu coração desgarrou e foi parar em lugar incerto e não sabido. À vezes o escuto num choro assustado, bem longe daqui.

Foi no quarto domingo e ela ali, parada, com um jeito sem graça no corpo, segurando o menino. Não me olhava na cara. É o sol, incomoda demais, ela dizia.

Depois disso, nunca mais. Nunca mais Maria Rita. Nunca mais o menino.

Não sei quanto me resta de pena. Dizem que é pouca. Pra mim não acaba nunca. Saio amanhã. Volto depois. Até que venha a hora de não sair nunca mais.

Nunca mais Maria Rita. Nunca mais meu menino. Nunca mais a promessa de tomar tento na vida.

Que vida? Eu morri há mais de ano, no quarto domingo, na última visita de Maria Rita.


Neuza Sueli

Bem que eu gosto desta vida, antes eu nem gostava, sentia muita falta dos meninos, da minha mãe, até do meu pai com aquele jeito sempre doente. Mas fui tomando gosto por estas bandas e o meu povo foi todo morrendo.

Meu pai foi o último. Ele e aquele jeito doente dele.

Acho que passei mais da metade da vida grudada nesta janela. Quanta menina saiu daqui com promessa de casamento. Eu também casei um dia. Tem tanto tempo, nem lembro direito. Ele foi embora, vestido de branco. Camisa bem passada. Eu gostava de cuidar das coisas dele, mas ele foi embora e eu tomei gosto por esta janela. No começo era só espera, depois acabei esquecendo os motivos. E fui ficando. Não ligo pra dinheiro, as meninas ligam, eu não. Gosto mesmo é de olhar a vida dos outros. Tem dia que eu nem trabalho. Às vezes vem uma moça. Ela me dá presente e diz que queria aprender certas coisas. Eu ralho com ela: moça, tá pensando que é bonita esta vida? Volta pra sua casa, reza um credo. Isso é falta de oração. Ela vai embora, mas volta, envergonhada, dizendo que sente umas coisas esquisitas dentro dela. Tenho pena. Tão bonita e querendo aprender a ser feliz comigo.

Logo comigo: a piada mais antiga do puteiro.


A Casa

A gente era feliz, eu e ele, em nossa casa comprada a prestação. Não tivemos filhos, que Deus achou melhor secar meu útero. Em 80 ele arrumou outra e uma criança, que eu ajudei a criar com amor de mãe. Porque se era dele, então, era minha.

A gente era feliz em nossa casa, ele, eu, o menino. Até que ele inventou de beber todo dia. Até que ele inventou de ficar largado num canto, cheio de desgosto e tristeza.

Semana passada ele morreu e seu filho disse baixinho "mãe, você não merecia esse sofrimento todo". Eu olhei para ele, tão igual ao homem que dormia dentro do caixão, e me lembrei de um dia muito claro, e do moço que me acenava de longe, com as chaves de nossa casa entre os dedos da mão.

(hoje paguei a última prestação)


notas da autora:
1. essas pequenas histórias são reais e fazem parte da minha vivência forense.
2. em relação ao conto Maria Rita, perdi as contas de quantas cartas levei ao correio a pedido do meu cliente. todas elas retornaram com carimbo de destinatário desconhecido.


mariza lourenço

[imagem dick luria]
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03/04/2009

Germina: depois das chuvas de março

de volta... *;)


após alguns meses de recesso, a
Germina - Revista de Literatura e Arte está de volta. e eu, confesso, já estava sentindo uma falta enorme de toda a correria, de toda a loucura dos dias que antecedem a atualização da revista. mas a 'parada' foi absolutamente necessária para que suas editoras, Silvana Guimarães e eu, pudessem descansar, já que ambas, também, correm demais por conta de suas atividades profissionais fora da Web.

por ora, só digo que essa edição está bárbara, cujo conteúdo, resultado da colaboração preciosa de nossos colunistas e convidados, se mantém impecável e de qualidade ímpar.

a Germina vem crescendo a cada edição. E a cada edição temos certeza de que vale a pena a semeadura, de que vale a pena cada hora gasta, de que, realmente, vale a pena investir na boa literatura.

e boa literatura é o que não falta por lá, confiram:

www.germinaliteratura.com.br

nesta edição, agradeço particularmente, já que me dirijo aos amigos da blogosfera, ao escritor, jornalista e professor Márcio Almeida Júnior, do blogue
Viver e Contar, ao poeta, escritor e jornalista Germano Xavier, do blogue Clube de Carteado, e à escritora e professora de literatura Letícia Palmeira, do blogue Afeto Literário, cujas colaborações, além de significativas, embelezaram ainda mais as páginas de nossa revista.

acho que, agora, eu mereço dormir um pouquinho, afinal, também sou filha de Deus... *;)

buenas noches aos amigos.

mariza lourenço
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