Morreu Aníbal Beça, hoje, em Manaus. Morreu Iosif Landau, em
14 de agosto, no Rio de Janeiro. Morreu Rodrigo de Souza Leão,
no último 2 de julho. Mas a poesia resiste. Eterna. Absoluta.
Apesar da tristeza.
Mariza Lourenço & Silvana Guimarães
Editoras
TEMPO DE BUSCA
Aníbal Beça
Procuro por uma porta
que me abra um tempo mais sereno.
Pressinto que ela está por aí, talvez próxima,
à toa nos meus caminhos vagos.
Entre uma passada e outra
me apresso em tocá-la,
e ela na sua calma surda de madeira
se afasta para voltar ao estado de árvore.
Sinto que também ela procura por alguma coisa
com algo de vento mastigando capim.
Vez por outra escuto um mugido
rangendo entradas e saídas
trompa pastoral se fechando em tardes.
Meus amigos me dizem que possuem sua chave,
que são íntimos no entrar e sair.
— seja pela parte da frente seja pela parte de trás —
sabem até do seu humor
pela leitura enrugada dos múltiplos nós,
mas não podem emprestá-la.
Temem que eu não volte para devolvê-la.
O
Iosif Landau
Profundamente sensibilizado
ante o comportamento das espécies
geradas sem óvulo e espermatozóide,
e como a Verdade paira sobre todas as verdades,
assim deixo escrito com infantil raiva minha perplexidade
para que sobre ela se debrucem poetas e adivinhos
e a todos quantos se interessam com o próprio interesse.
Este meu lírico desabafo tão rico em significar nada
me aproxima dos abismos do céu e alturas do mar.
Vejo-me um Colombo que descobriu os índios
que teimam continuar vivos,
vejo-me um Marco Pólo que descobriu que
a lua da China era a mesma de Veneza,
vejo-me um Amundsen que penou ao chegar ao Pólo Sul
para descobrir que lá fazia um frio danado,
vejo-me o Astronauta que pisou na Lua
e descobriu que a sua mijada em nada difere
das mijadas terrestres,
e por fim só acredito numa verdade cientificamente provada,
que o círculo é a figura geométrica perfeita
e por isso o cu é redondo.
*
rodrigo de souza leão
pudera Deus negar os fatos
e vagar pelas pedras portuguesas.
mas tudo está sujo até o ápice.
Deus não pode ser tudo todo dia.
e não adianta eu me iluminar.
acender um fósforo é perigoso.
e não existem gravetos e pedras
para descobrir o fogo novamente.
para moldar um poema na pedra.
além de mim o que serei.
pra que me libertar numa prisão?
a maior clausura sou eu.
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