até que a vida nos obrigue...
dia desses, no mercado em que costumo fazer compras rápidas, encontrei uma conhecida que não via há tempos, para ser mais exata desde o nascimento de seu primeiro filho, um menino lindo de doer a vista. fiquei horrorizada, ela estava enorme, com os cabelos desgrenhados, a roupa desgrenhada, a pele cheia de marcas. conversamos, contamos as novidades e nos despedimos. a bem da verdade fiquei bastante incomodada com aquele encontro, melhor dizendo, de vê-la naquele estado físico deplorável, como se ela tivesse deixado de se importar consigo mesma. mamãe, que naquele dia me acompanhava, ao entrar no carro disse: não entendo porque certas mulheres, ao se casarem, ficam desse jeito. respondi que não sabia o motivo mas que, talvez, fosse a tribulação de lidar com filho, casa, marido, trabalho. filha, mamãe disse, isso não é desculpa.
mamãe tá certa (como sempre), não é desculpa. a gente sabe que aparência não é tudo, que importa muito pouco se equiparada à inteligência, capacidade e experiência. mas ainda que não seja tudo revela bastante o que somos, o nosso humor e, principalmente, o que fizemos e fazemos de nossa vida. afinal, o que leva uma jovem linda, bem arrumada, asseada, a se transformar em puro desleixo? se eu pudesse arriscar uma resposta, diria, ou melhor, responderia com outra pergunta: onde terminam os objetivos? em um casamento? em filhos? em uma promoção? que seja, porque não há nada de mais em se optar pela honrosa condição de dona de casa, de mãe e esposa em tempo integral. o que me perturba é a escolha que encolhe e nos atira a uma condição secundária perante nós mesmos e o mundo.
não existe nada mais bonito do que a maternidade. não existe nada mais bonito do que encontrar uma alma afim e experimentar um amor que enleve e construa. mas, ora, ora, mais bonito do que tudo isso é amar a imagem refletida no espelho, é escolhê-la como prioridade até o fim. e não pensem que não caí na esparrela de me posicionar em último lugar algum dia em minha vida. como muitas priorizei os filhos e a família e, como muitas, me senti a 'merda do cavalo do bandido de um filme de categoria B'. até que fiquei doente e, nesse doloroso processo, descobri o saudável valor de um batom numa boca amarga, um vestido legal num corpo à beira da desistência e uma necessária força de vontade em construir um mundo próprio, com objetivos únicos e essenciais à minha caminhada. além dos filhos, além do amor.
mariza lourenço
[imagem ©vikavalter]








