40 minutos...
vai me curar? - não, vai te deixar melhor, mais equilibrada. mais feliz? - não, vai te deixar melhor, mais equilibrada. e se eu tomar duas? - não recomendo. só uma, então? - sim, duas vezes ao dia, pela manhã e à noite. quero ficar feliz. - não tome duas. e se eu tomar três? - não recomendo. e se eu quiser morrer? - você não quer. quero. - tome uma só. anote aí em seu caderninho de papel reciclado que uma doida resolveu morrer e você se isenta de qualquer culpa perante os órgãos competentes. - e essa necessidade de falar. que você faz questão de cobrar, tudo bem, tudo bem, é seu ofício, o meu é lhe dar arrimo para pesquisas, então, eu lhe sirvo, sirva-me também, meu barqueiro. - caronte? pra falar a verdade só o que me ocupa agora é esse relógio insistente. 40 minutos me parece tempo demais pra desfiar minhas tristezas, o rosário dá conta do recado em menos tempo. - impossível. talvez, mas ele me ocupa, o relógio, com seus ponteiros marcando minhas incongruências, medindo minhas lacunas. não dá, tenho páginas demais pra uma voz tão impotente. e ouvidos de mercador. - eu te ouço. então coloca a mão aqui, neste buraco trêmulo, neste luto que oração nenhuma consegue levar. - dê um tempo, então. todo do mundo, é o que mais tenho, afinal, numa vida de arremedos. eu faria bonito num espetáculo circense, uma lilith arrependida e barbarda. e eu daria a adão, se tivesse existido, todo o meu poderio.
- você não quer...
- o que?
- tomar uma.
- tomar uma.
mariza lourenço
[imagem de Erik Snyder]









