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14/09/2011

40 minutos...

vai me curar? - não, vai te deixar melhor, mais equilibrada. mais feliz? - não, vai te deixar melhor, mais equilibrada. e se eu tomar duas? - não recomendo. só uma, então? - sim, duas vezes ao dia, pela manhã e à noite. quero ficar feliz. - não tome duas. e se eu tomar três? - não recomendo. e se eu quiser morrer? - você não quer. quero. - tome uma só. anote aí em seu caderninho de papel reciclado que uma doida resolveu morrer e você se isenta de qualquer culpa perante os órgãos competentes. - e essa necessidade de falar. que você faz questão de cobrar, tudo bem, tudo bem, é seu ofício, o meu é lhe dar arrimo para pesquisas, então, eu lhe sirvo, sirva-me também, meu barqueiro. - caronte? pra falar a verdade só o que me ocupa agora é esse relógio insistente. 40 minutos me parece tempo demais pra desfiar minhas tristezas, o rosário dá conta do recado em menos tempo. - impossível. talvez, mas ele me ocupa, o relógio, com seus ponteiros marcando minhas incongruências, medindo minhas lacunas. não dá, tenho páginas demais pra uma voz tão impotente. e ouvidos de mercador. - eu te ouço. então coloca a mão aqui, neste buraco trêmulo, neste luto que oração nenhuma consegue levar. - dê um tempo, então. todo do mundo, é o que mais tenho, afinal,  numa vida de arremedos. eu faria bonito num espetáculo circense, uma lilith arrependida e barbarda. e eu daria a adão, se tivesse existido, todo o meu poderio.

- você não quer...
- o que?
- tomar uma.


mariza lourenço

[imagem de Erik Snyder]
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02/09/2011

pequenas confissões...

às vezes resolvo escrever sobre algo e, de repente, a disposição muda, e é quando me pego escrevendo sobre outra coisa. como hoje, por exemplo, em que um pensamento recorrente pediu pra sair. então, estou dando passagem. culpem a ela e relevem, se possível, a divergência de nossas letras.

há dois anos eu não sabia de sua existência, dessa mulher estranha surgida do nada, velha o suficiente pra me fazer desconfiar de sua existência. e nova o bastante para assombrar o resto dos meus dias.

(e que não sejam tantos, por favor)

mas ela surgiu, apareceu, caiu, com todas as linhas e sulcos de uma mulher milenar, com as suas gorduras, maneirismos e liquidas saudades, bem iguais à de qualquer uma que tenha se atrevido a viver de lembranças. tão diferente de mim e minhas angústias. porque ela sempre será um vento à espera da tempestade.

(roda roda menina, roda essa saia amarela)

e eu... ora, este deserto de areias brancas tão lindas.

e ela... essa miragem num poço sem fundo, um narciso rebelde, a mão que degola.

(a mão, quem dera, fosse minha)

eu, eu, eu, e a tentativa inútil de me desvencilhar dessa aparição que me come pelas beiras, margeia meus limites, me prostra e põe de joelhos em uma oração ordinária e pagã.

há dois anos ela surgiu, apareceu, caiu, essa mulher estranha, vinda não se sabe de onde, poço ou espelho, do inferno, talvez.

ou ainda do céu, onde moram as crenças...

aparecida, quem sabe, entre os meios das pernas, moradas sagradas de doloridas saudades.

mariza lourenço


[imagem de nancy honey]
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