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3 de ago. de 2012

o padre

às quartas-feiras me olhava com cara de quem comeu e não gostou e suspirando, indignado, me abria a porta do confessionário antecipando-me as penitências, todas elas bem maiores que os pecados que eu confessava ter. com olhos de desprezo me olhava, como se fosse eu uma pintura mal-acabada de Maria, a Madalena, que não tem cura e não se emenda, mariposa de noites sujas iluminada pela indecência das ruas. com voz de culpa me falava, sentindo-se por mim ofendido, "sujeita ousada", que desrespeitando-lhe o rebanho, fazia barulho com os saltos e sob a transparência do vestido convidava ao pecado. podia sentir-lhe a respiração pesada através da treliça que nos separava, recriminando-me a invasão da hora Sagrada, quando uma multidão de ovelhas carcomidas silenciosamente desfiava nas contas do Rosário suas preces e ladainhas. mesmo assim, continuava me abrindo a porta, às quartas, hora da Ave-Maria, e em todas as despedidas enojado dizia "va¡ e não peques mais!". a isso eu não respondia, só ria um riso escondido, que não era de pilhéria, era mais um sorriso frouxo de quem colheu o que plantou!

mariza lourenço

[imagem ©creativeDIYkei]


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